terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Carta Maior: A ordem criminosa do mundo

Em novembro de 2008, a TVE (Espanha) exibiu um documentário intitulado “A ordem criminosa do mundo”. Nele, Eduardo Galeano, Jean Ziegler e outras personalidades mundiais falam sobre a transformação da ordem capitalista mundial em um esquema mortífero e criminoso para milhões de pessoas em todo o mundo. Mais de três anos depois, o documentário permanece mais atual do que nunca, com alguns traços antecipatórios da crise que viria atingir em cheio também a Europa. Reproduzimos aqui o vídeo, legendado em português, e algumas das principais afirmações de Galeano e Ziegler:
“Os verdadeiros donos do mundo hoje são invisíveis. Não estão submetidos a nenhum controle social, sindical, parlamentar. São homens nas sombras que procuram o governo do mundo. Atrás dos Estados, atrás das organizações internacionais, há um governo oligárquico, de muito poucas pessoas, mas que exercem um controle social sobre a humanidade, como jamais Papa algum, Imperador ou Rei teve”. (Jean Ziegler)
“O atual sistema universal de poder converteu o mundo num manicômio e num matadouro” (Eduardo Galeano).
“O capital financeiro percorre o planeta 24 horas por dia com um único objetivo: buscar o lucro máximo. A globalização é uma grande mentira. Os donos do grande capital que dirigem o mecanismo da globalização dizem: Vamos criar economias unificadas pelo mundo inteiro e assim todos poderão desfrutar de riqueza e de progresso. O que existe, na verdade, é de uma economia de arquipélagos que a globalização criou” (Jean Ziegler).
“Há três organizações muito poderosas que regulam os acontecimentos econômicos: Banco Mundial, FMI e OMC; são os bombeiros piromaníacos. Elas são, fundamentalmente, organizações mercenárias da oligarquia do capital financeiro invisível mundial” (Jean Ziegler).
“Eu não creio que se possa lutar contra a pobreza e criar uma estratégia de luta contra a pobreza sem lutar contra a riqueza, contra os ricos, pois os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres” (José Collado, Missionário em Níger).
“Todos os dias neste planeta, segundo a FAO, 100 mil pessoas morrem de fome ou por causa de suas consequências imediatas” (Jean Ziegler).
“Hoje as torturas são chamadas de “procedimento legal”, a traição se chama “realismo”, o oportunismo se chama “pragmatismo”, o imperialismo se chama “globalização” e as vítimas do imperialismo, “países em vias de desenvolvimento. O dicionário também foi assassinado pela organização criminosa do mundo. As palavras já não dizem o que dizem, ou não sabemos o que dizem” (Eduardo Galeano).
“Se hoje eu digo que faz falta uma rebelião, uma revolução, um desmoronamento, uma mudança total desta ordem mortífera e absurda do mundo, simplesmente estou sendo fiel á tradição mais íntima, mais sagrada da nossa civilização ocidental. O nosso dever primordial hoje deve ser reconquistar a mentalidade simbólica e dizer que a ordem mundial, tal como está, é criminosa. Ela é frontalmente contrária aos direitos do homem e aos textos fundacionais das nossas civilizações ocidentais” (Jean Ziegler).
“A primeira coisa que devemos fazer é olhar para a situação de frente e não considerar como normal e natural a destruição, por exemplo, de 36 milhões de pessoas por culpa da fome e da desnutrição. Se houvesse uma só morte por fome em Paris haveria uma revolta. De nenhum modo devemos permitir que as grandes organizações de comunicação nos intimidem, nem as fábricas das teorias neoliberais das grandes corporações, pois todas as corporações se ocupam, primeiro, de controlar as consciências, de controlar como podem a imprensa e o debate público” (Jean Ziegler).

É FANTÁSTICO! "o show (business) da vida"

Quem viu Fantástico neste domingo e o bilionário Eike Batista dando dicas de empreendedorismo para os pobres que assistem fantástico... não sei porque, mas ao ler este texto lembrei-me da chamada que vi do programa global...

03/01/2012

O mundo do dinheiro e seus heróis

Até um certo momento os ricos ou escondiam sua riqueza ou tratavam de passar despercebidos, como se não ficasse bem exibir riqueza em sociedades pobres e desiguais. Ou até também para escapar da Receita.

De repente, o mundo neoliberal - esse em que tudo vale pelo preço que tem, em que tudo tem preço, em que tudo se vende, tudo se compra – passou a exibir a riqueza como atestado de competência. Nos EUA se deixou de falar de pobres, para falar de “fracassados”. Numa sociedade que se jacta de dar oportunidade para todos, numa “sociedade livre, aberta”, quem nao deu certo economicamente, é por incompetência ou por preguiça.

Ser rico é ter dado certo, é demonstrar capacidade para resolver problemas, ter criatividade, se dar bem na vida, etc., etc. Até um certo momento as biografias que se publicavam eram de grandes personagens da historia universal – governantes, lideres populares, gênios musicais, detentores de grandes saberes. A partir do neoliberalismo as biografias de maior sucesso passaram as ser as dos milhardários, que supostamente ensinam o caminho das pedras para os até ali menos afortunados.

Todos dizem que nasceram pobres, subiram na vida graças à tenacidade, à criatividade, ao trabalho duro, ao espirito de sacrifício. Tiveram tropeços, mas nao desistiram, leram algum guru de auto-ajuda que os fez aumentarem sua auto estima, acreditarem mais em si mesmos, recomeçarem do zero, até chegarem ao sucesso indiscutível.

Seus livros se transformam em best-sellers, vendem rapidamente – até que vários deles caem em desgraça, porque flagrados em algum escândalo -, eles viajam o mundo dando entrevistas e vendendo seu saber que, se fosse seguido por seus leitores, produziria um mundo de ricos e de pessoas realizadas e felizes como eles.

Quem vai publicar um livro de um “fracassado”? Só mesmo se fosse para que as pessoas soubessem quais os caminhos errados, aqueles que nao deveriam seguir, se querem ser ricos, bonitos e felizes. O mundo do trabalho, da fábrica, do sindicato, dos movimentos de bairro, das comunidades – mundo marginal e marginalizado.

Programas de televisão exaltam os ricos, os bem sucedidos, as mulheres que exibem sua elegância, sua falta de pudor de gastar milhões na Daslu e nas viagens a Nova York e a Paris. Ninguém quer ver gente feia, pobre, desamparada, que só frequenta os noticiários policiais e de calamidades naturais. As telenovelas tem como cenários os luxuosos apartamentos da zona sul do Rio e dos jardins de Sáo Paulo, com belas mulheres e homens que não trabalham, no máximo administram empresas de sucesso. Os pobres giram em torno deles – empregadas domésticas, entregadores de pizza, donos de botecos -, sempre como coadjuvantes do mundo dos ricos, que propõem o tipo de vida que as pessoas deveriam ter, se quiserem ser ricos, bonitos, felizes.

Esse mundo fictício esconde os verdadeiros mecanismos que geram a riqueza e a pobreza, os meios sociais – os bancos por um lado, as fábricas por outro – em que se geram a riqueza e a fortuna, a especulação e a expropriação do trabalho alheio. Em que estão os vilões e os heróis das nossas sociedades.
Postado por Emir Sader às 09:29


domingo, 1 de janeiro de 2012

Governo insere 52 nomes na "lista suja" do trabalho escravo

No sistema, não há riqueza sem exploração. Somente os tolos acreditam no discurso liberalista de que basta trabalhar e todos somos livres para nos tornarmos ricos. Ainda não vi um milionário que não explorasse "seus funcionários - trabalhadores", ou não sonegasse impostos, não comprasse juízes e advogados para ir contra a lei.

A lista de empresas riquíssimas que exploram seres humanos e seu trabalho está cada vez maior, e isso não é só nas regiões pobres do país não:


Governo insere 52 nomes na "lista suja" do trabalho escravo

Leonardo Sakamoto
Atualizada nesta sexta (30), o cadastro de empregadores flagrados com mão-de-obra análoga à de escravo cresceu com a entrada de 52 novos registros, chegando ao número recorde de 294 nomes, de acordo com notícia divulgada no Blog do Sakamoto. Entre os que entraram na “lista suja” estão grupos sucroalcooleiros, madeireiras, empresários e até uma empreiteira envolvida na construção da usina hidrelétrica de Jirau. A relação inclui também médicos, políticos, famílias poderosas e casos de exploração de trabalho infantil e de trabalho escravo urbano. Para ver a lista atualizada, clique aqui.

A “lista suja” tem sido um dos principais instrumentos no combate a esse crime, através da pressão da opinião pública e da repressão econômica. Após a inclusão do nome do infrator, instituições federais, como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Banco da Amazônia, o Banco do Nordeste e o BNDES suspendem a contratação de financiamentos e o acesso ao crédito. Bancos privados também estão proibidos de conceder crédito rural aos relacionados na lista. Quem é nela inserido também é submetido a restrições comerciais e outros tipo de bloqueio de negócios por parte das empresas signatárias do Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo – que representam mais de 25% do PIB brasileiro.

O nome de uma pessoa física ou jurídica é incluído na relação depois de concluído o processo administrativo referente à fiscalização dos auditores do governo federal e lá permanece por, pelo menos, dois anos. Durante esse período, o empregador deve garantir que regularizou os problemas e quitou suas pendências com o governo e os trabalhadores. Caso contrário, permanece na lista.

Abaixo, trechos da apuração de Bianca Pyl, Daniel Santini e Maurício Hashizume, da Repórter Brasil, que monitora o cadastro desde sua criação em novembro de 2003:

Entre os novos registros, há casos como o de Lidenor de Freitas Façanha Júnior, cujos trabalhadores, segundo os auditores fiscais do trabalho envolvidos nas operações de libertação, bebiam água infestada com rãs, e o do fazendeiro Wilson Zemann, que explorava crianças e adolescentes no cultivo de fumo. Entre os estados com mais inclusões nesta atualização estão Pará (9 novos nomes), Mato Grosso e Minais Gerais (8 cada). A incidência do problema no chamado Arco do Desmatamento demonstra que a utilização de trabalho escravo na derrubada da mata para a expansão de empreendimentos agropecuários segue presente.

Nesta atualização, apenas dois nomes foram retirados do cadastro (Dirceu Bottega e Francisco Antélius Sérvulo Vaz), o que pesou para que a relação chegasse a quase 300 registros.

Escravos da cana

Entre os destaques da atualização estão libertações que chamam a atenção pelo grande número de escravos resgatados em plantações de cana-de-açúcar. Só na Usina Santa Clotilde S/A, uma das principais de Alagoas, foram flagrados 401 trabalhadores em situação degradante em 2008. Também entra nesta atualização a Usina Paineiras, que utilizou 81 escravos em Itabapoana (RJ) em 2009. Um ano após o flagrante que resultou nesta inclusão, a empresa comprou a produção da Erbas Agropecuária, onde foram flagrados 95 trabalhadores escravizados.
Mesmo com o aumento da preocupação social por parte das usinas, real ou apenas declarado, o setor ainda tem ocorrências de mão-de-obra escrava.

A Miguel Forte Indústria S/A foi flagrada explorando 35 trabalhadores, incluindo três adolescentes, na colheita de erva-mate em Bituruna (PR). A madeireira, que mantinha o grupo em barracões de lona sob comando de “capatazes”, anuncia na sua página que “o apoio a projetos sociais que promovem a cidadania e o bem-estar, principalmente entre a população carente, mostra o comprometimento da Miguel Forte com os ideais de uma sociedade mais justa e humana”. À frente da empresa, Rui Gerson Brandt, acumula o cargo de presidente do Sindicato das Indústrias de Papel e Celulose do Paraná (Sindpacel).

Hidrelétrica de Jirau

Não é só na monocultura ou no campo que os flagrantes acontecem. As condições degradantes em projetos bilionários do país têm sido uma constante e, nesta atualização, uma das empreiteiras envolvidas na construção de uma hidrelétrica também entrou na lista. A Construtora BS, contratada pelo consórcio Energia Sustentável do Brasil (Enersus), foi flagrada utilizando 38 escravos na construção da Usina Hidrelétrica de Jirau. Além de enfrentarem problemas relacionados aos alojamentos, segurança no trabalho e saúde, os empregados ainda eram submetidos a escravidão por dívida, por vezes em esquemas sofisticados que envolvem até a cobrança por meio de boletos bancários, conforme denunciado, na época, pela Repórter Brasil.

Foto 4 de 7 - Equipes de fiscalização do governo federal flagraram, por três vezes, trabalhadores escravos produzindo peças de roupa da marca Zara na cidade de São Paulo Mais Bianca Pyl/Repórter Brasil
Mesmo após o flagrante, as condições de trabalho não melhoraram, segundo denúncias recentes. Em abril deste ano, um grupo de 20 trabalhadores procurou o Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Rondônia (Sticcero) alegando que a BS não havia pago o aviso prévio e eles estavam dormindo no galpão da Construtora, sem ter como voltar para casa. Uma liminar chegou a bloquear os bens da empresa em 2011.

O isolamento, aliás, continua sendo utilizado como ferramenta para escravizar pessoas. Nesta atualização da lista, foi incluído Ernoel Rodrigues Junior, cujos trabalhadores estavam em um local de tão difícil acesso que foi necessário um helicóptero para o resgate dos trabalhadores. ??Entre os libertados estavam dois adolescentes de 15 e 17 anos e uma de 16 anos. Para chegar no local em que o grupo estava, foi necessário percorrer a partir de São Félix do Xingu (PA) por 14 horas um caminho que contava com uma ponte de madeira submersa, balsa e estradas de terra em condições tão ruins que foi necessário o uso de tratores para desatolar alguns dos veículos. De acordo com os relatos colhidos pela fiscalização, todos tinham medo de reclamar porque o fazendeiro e o segurança da propriedade andavam armados. Para que conseguisse fazer a denúncia, um trabalhador explorado conseguiu fugir e teve de caminhar durante seis dias pela mata e por estradas de terra.

Outro destaque na atualização da “lista suja” neste ano é a inclusão de Fernando Jorge Peralta pela exploração de escravos na Fazenda Peralta, em Rondolândia (MT). O Grupo Peralta é um conglomerado empresarial poderoso, do qual fazem parte a rede de supermercados Paulistão, a Brasterra Empreendimentos Imobiliários, as concessionárias Estoril Renault/Nissan (em Santos, Guarujá e Praia Grande), os shoppings Litoral Plaza Shopping e Mauá Plaza Shopping (cuja construção, na época, envolveu uma denúncia de propina), a Transportadora Peralta (Transper) e a PRO-PER Publicidade e Propaganda, só para citar os principais ramos de atividade do grupo. O flagrante que levou Fernando Jorge à “lista suja” aconteceu em 2010 e envolveu a libertação de 11 trabalhadores de sua fazenda.

Luiz Carlos Brioschi e Osmar Brioschi, que também entram na lista nesta atualização, foram flagrados se aproveitando de 39 trabalhadores na colheita do café em Marechal Floriano (ES). Eles mantinham os empregados em regime de escravidão por dívidas e em condições extremamente precárias de trabalho e vida. Dois dias após a libertação ter sido divulgada, Osmar Brioschi esteve entre os homenageados com placas e diplomas na Assembleia Legislativa do Espírito Santo pelo “trabalho realizado em favor do campo capixaba”, por iniciativa do deputado Atayde Armani (DEM-ES).

Devastação ambiental

Outro aspecto reforçado pela atualização da lista é o elo entre escravidão e devastação ambiental. O uso de escravos em grandes projetos de desmatamento e em áreas com conflitos agrícolas é bastante comum. Desta vez, foi incluído na relação Tarcio Juliano de Souza, apontado como responsável pela destruição de milhares de hectares de floresta amazônica nos últimos anos. Ele é considerado pela Polícia Federal responsável por montar um esquema para desmatar cerca de 5 mil hectares de floresta nativa na região de Lábrea (AM), onde mantém a Fazenda Alto da Serra. Chegou a ser preso em Rio Branco (AC) pelos crimes de redução de pessoas a condições análogas à escravidão, aliciamento de trabalhadores e destruição de Áreas de Preservação Permanente (APPs) e foi denunciado por tentar comprar um fiscal. Na época, o superintendente regional do trabalho Dermilson Chagas declarou que Tárcio estava à frente de um “consórcio de fazendeiros” do Acre formado para transformar grandes áreas de Lábrea (AM) em pastos, com a utilização criminosa de escravos para o desmate, para criar gado bovino.

Políticos e doutores

Um ex-prefeito, um ex-secretário municipal do Meio Ambiente e dois médicos estão entre os que entraram na relação nesta atualização. O ex-prefeito Edmar Koller Heller foi flagrado em 2010 explorando mão-de-obra escrava em um garimpo na Fazenda Beira Rio, que fica em Novo Mundo (MT), a 800 km da capital mato-grossense Cuiabá (MT), próximo à divisa com o Pará. Edmar foi prefeito de Peixoto de Azevedo (MT) em 2000, pelo extinto PFL (hoje DEM). Teve seu mandato cassado após ser acusado de desvio de recursos públicos, contratação de pessoal especializado sem licitação e contratação ilegal de veículos automotores de auxiliares de confiança.

Em 2007, ele se envolveu em outro escândalo político e chegou a ser preso. Como secretário de Administração da prefeita Cleuseli Missassi Heller, sua esposa, ele foi considerado responsável por improbidade administrativa, configurada pelo favorecimento de uma única empresa em processos licitatórios do município. Em 2009, a Terceira Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Mato Grosso manteve a condenação.

Outro político que passa a fazer parte da lista é Evanildo Nascimento Souza, flagrado com escravos quando ainda era secretário de Meio Ambiente de Goianésia do Pará (PA). O homem que deveria zelar pela natureza foi flagrado explorando trabalhadores justamente no corte e queima de madeira para produção de carvão. De acordo com o Ministério Público do Trabalho (MPT), foram encontrados na Fazenda RDM (onde se localiza a Carvoaria da Mata), em julho de 2009, nove trabalhadores laborando em condições degradantes no corte de madeira, transporte, empilhamento, enchimento dos fornos, vedação do forno com barro e carbonização. Os trabalhadores não possuíam equipamentos de proteção individual (EPIs) e estavam alojados em um barraco em péssimas condições, sujo com detritos, restos de maquinário e peças de veículos, armazenamento de combustível, sem separação para homens e mulheres, nem ventilação e iluminação.

Os médicos incluídos na relação são José Palmiro Da Silva Filho, CRM 830, flagrado com cinco escravos na Fazenda São Clemente, em Cáceres (MT), e Ovídio Octávio Pamplona Lobato, CRM 3236, flagrado com 30 escravos na Fazenda Tartarugas, em Soure (PA).

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

TELEVISÃO (1982) - TÚNEL DO TEMPO...

A Televisão
Me deixou burro
Muito burro demais
Oi! Oi! Oi!
Agora todas coisas
Que eu penso
Me parecem iguais
Oi! Oi! Oi!...
O sorvete me deixou gripado
Pelo resto da vida
E agora toda noite
Quando deito
É boa noite, querida....
Oh! Cride, fala pra mãe
Que eu nunca li num livro
Que o espirro
Fosse um vírus sem cura
Vê se me entende
Pelo menas uma vez
Criatura!
Oh! Cride, fala pra mãe!...
A mãe diz pra eu fazer
Alguma coisa
Mas eu não faço nada
Oi! Oi! Oi!
A luz do sol me incomoda
Então deixa
A cortina fechada
Oi! Oi! Oi!
É que a televisão
Me deixou burra
Muito burra demais
E agora eu vivo
Dentro dessa jaula
Junto dos animais...
Oh! Cride, fala pra mãe
Que tudo que a antena captar
Meu coração captura
Vê se me entende
Pelo menos uma vez
Criatura!
Oh! Cride, fala pra mãe!...
A mãe diz pra eu fazer
Alguma coisa
Mas eu não faço nada
Oi! Oi! Oi!
A luz do sol me incomoda
Então deixo
A cortina fechada
Oi! Oi! Oi!...
É que a televisão
Me deixou burra
Muito burra demais
E agora eu vivo
Dentro dessa jaula
Junto dos animais...
E eu digo:
Oh! Cride, fala pra mãe
Que tudo que a antena captar
Meu coração captura
Vê se me entende
Pelo menos uma vez
Criatura!
Oh! Cride, fala pra mãe...
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!
Oh! Oh! Oh! Oh! Oh! Oh!


" E assim como adultos, os adolescentes acreditam que todos são influenciados pela mídia, menos ele mesmo". A média é de mais de 21 horas de tv por semana, são mais de 10.000 cenas de violência por ano, de maneira divertida e glamorosa, inclusive nos filmes animados infantis (em 100% deles), em que os heróis também usam violência como meio justificável para resolver conflitos e vencer os inimigos;  e mais de 15.000 cenas com referências sexuais por ano, inclusive imagens associadas a venda de produtos como bebidas, por exemplo.
O interessante é que hoje temos um surto de pessoas violentas, com atividade sexual promíscua (o que gera muitas vezes doenças e gravidez indesejada e precoce), e pessoas embriagadas causando a morte de outras. Mas, não, só os idiotas são influenciados pela mídia, eu bebo porque eu gosto, faço sexo cedo e com todo mundo porque sou bom e sou violento porque não levo desaforo para casa, me dou o respeito... santa burr...ingenuidade!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Privataria Tucana lança luz às privatizações do governo FHC

Lançado na última sexta (9), livro some das prateleiras das livrarias apesar do silêncio de boa parte da mídia.

Por Sheila Fonseca, especial para o Vermelho*


 Apesar do silêncio quase unânime dos grandes veículos de comunicação, o livro ‘Privataria Tucana’ chegou às livrarias no último fim de semana alcançando dois feitos: o de sucesso editorial retumbante que deve posicioná-lo no topo dos livros mais vendidos, e o de cair como uma verdadeira bomba no cenário político brasileiro, trazendo denúncias documentadas sobre graves irregularidades no esquema de privatizações do governo FHC, apelidadas há tempos atrás pelo colunista Elio Gaspari de ‘privataria’, termo utilizado no título do livro.

O livro, resultado de doze anos de trabalho do jornalista Amaury Ribeiro Jr., foi alvo de polêmicas – assim como o autor – e controvérsias nas eleições presidenciais de 2010, quando Amaury foi acusado de participar de um grupo que tinha como objetivo a montagem de um dossiê contra políticos tucanos. Na ocasião, Amaury Ribeiro Jr., que terminou indiciado pela Polícia Federal, cita o livro e torna-se personagem marcante na disputa presidencial.

O livro chegou às bancas na última sexta ( 9), publicado pela Geração Editorial e revela por meio de farta documentação extraída de fontes públicas - como arquivos da CPI do Banestado - o esquema de lavagem de dinheiro e pagamento de propina.

No livro, José Serra, ex-ministro da Saúde do governo de Fernando Henrique Cardoso, figura como personagem chave das denúncias. Documentos revelam como amigos e parentes do político do PSDB operaram um complexo sistema de irregularidades e fraudes financeiras.

Em entrevista exclusiva ao Vermelho, o jornalista Luiz Fernando Emediato conta os bastidores de uma série de controvérsias envolvendo o livro, esclarece boatos, responde frontalmente ao ataque do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dirigido ao autor do livro, esclarece a tentativa de Serra barrar o lançamento do livro, além das denúncias de arapongagem sobre Amaury Jr..

A entrevista a seguir também traz passagens da vida profissional do editor e polêmico jornalista Luiz Fernando Emediato, ganhador de diversos prêmios, dentre eles o Esso.

Vermelho - A sua editora, Geração Editorial, desde seu lançamento no mercado com ‘A República na Lama’ de José Neumanne, passando pelo bombástico ‘Memórias das Trevas’ sobre ACM, até o ‘Privataria Tucana’, segue a linha de publicação de temas polêmicos e reportagens investigativas que revelam os bastidores da política. Como foi feita a escolha por esse perfil de publicação? Livros de jornalismo investigativo em geral têm bom retorno editorial?
Luiz Fernando Emediato - Começamos nossa história editorial, em 1992, há 20 anos, portanto, lançando instant books, como este do Nêumanne que você cita e logo em seguida o "Mil Dias de Solidão", do Claudio Humnberto Rosa e Silva, ex-porta voz de Fernando Collor. Começamos assim porque em 1990 eu havia abandonado meu emprego de jornalista e, ao decidir ser editor de livros, decidi também que continuaria exercendo jornalismo publicando livros. Foi uma escolha ética e profissional. O retorno é bom, não tanto quanto lançar livros de auto-ajuda, de historias de vampiros para adolescentes ou romances edulcorados para moças.

Vermelho - ‘Privataria Tucana’, teve a primeira edição esgotada em cerca de 48 horas. Você esperava esse retorno? Apostava no tema?
L.F E. - Eu apostei no tema, quem não apostou foram as livrarias. Antes de definir a tiragem eu consulto a rede livreira e ela me indicava fazer apenas 15.000 exemplares, mais do que isso elas não pegariam e eu teria que guardar no estoque. Então foi uma surpresa para elas, não para mim. Meu feeling apontava para 100 mil exemplares, acho que vamos passar de 300 mil.

Vermelho - Tem previsão de impressão de uma nova edição? Quantas cópias?
L.F.E - Já estgamos reimprimindo 30.000 exemplarees, estarão prontos sexta-feira.

Vermelho - Me fale da estratégia de divulgação do livro, como foi montada?
L.F.E. -Como eu apostava no conteúdo devastador do livro, mas temia que os grandes jornais não o levasse em consideração, ou divulgassem com críticas pesadas, a estratégia foi não liberar o livro para a imprensa, salvo para a revista Carta Capital, e trabalhar apenas com Internet, blogues, Twitter e Facebook. Deu certo,.

Vermelho - Você revelou em entrevista recente que José Serra enviou um representante para propor uma conversa, na tentativa de barrar a publicação do livro. Como foi isso?
L.F.E. - Não foi isso. Um amigo comum - meu e dele - me convidou para almoçar e, muito elegantemente, fez perguntas sobre o livro, a pedido do sr. José Serra e, sabendo que eu ia publicar, perguntou se eu não aceitaria ir conversar com o ex-governador. Respondi que não tínhamos o que conversar e foi só isso.

Vermelho - Está circulando online uma matéria publicada em alguns sites e blogs, onde (segundo a reportagem) José Serra teria entrado em contato com a livraria Cultura para tentar comprar todos os exemplares, na tentativa de retirar do mercado o livro. Esta sabendo disso?
L.F.E. -Foi um boato, negado pela livraria. Não acreditei nisso, José Serra não seria estúpido a ponto de fazer isso. Ele teria que comprar 15.000 exemplares pelo pais inteiro, isso seria impossível.

Vermelho - Existem informações disseminadas em redes sociais, não confirmadas, de que o livro estaria sendo retido em algumas livrarias sob alegação de suposta ‘ordem judicial’. É verdade? Essa informação chegou a vocês?
L.F.E. - É falso. Não há, até o momento, ação judicial contra a circulação do livro.

Vermelho - Você espera processos em decorrência do livro por parte do alto escalão do PSDB?
L.F.E. - Sim e não. Seria um erro o sr. José Serra ou qualquer outro entrar na justiça contra o autor e a editora. A repercussão seria pior. Podem entrar com pedidos de indenização por danos morais, se se considerarem injustiçados, mas, nesse caso, podemos em reação pedir à Justiça que nos permita provar o denunciado. E aí provaremos. Não vejo como os personagens citados no livro possam ganhar qualquer ação contra nós. A verdade é uma só, não existem duas ou três.

Vermelho - Você possui bom trânsito e algumas amizades no Partido dos Trabalhadores. Tem receio da instrumentalização política alavancada pelas eleições municipais de 2012 e 2014? Acha que o livro pode ser taxado por alguns de ‘petista’? Espera esse tipo de manobra midiática?
L.F. E. - Eu tenho bom trânsito com gente de todos os partidos e de governos passados, assim como do atual governo. Fui e sou jornalista. Conheço gente que está na política desde o governo do general Geisel, que me perseguiu, aliás, com base na Lei de Segurança Nacional. Fui amigo de Sergio Motta, a quem admirava muito, convivi com Fernando Henrique Cardoso e muitos de seus ministros. Uma vez disse ao José Sarney que, ao contrário de muitos, gostava de alguns romances dele. Não sou filiado a partido nenhum. Tenho amigos no PT, na CUT e na Força Sindical. Escrevi projetos com o ex-ministro Antonio Kandir, de FHC. Fica difícil alguém acusar-me de estar a serviço do PT. Tenho amigos no PSDB que estão me ligando, chateados, e eu lhes peço apenas que LEIAM o livro do Amaury Ribeiro e depois venham falar comigo. As provas contidas no livro são irrefutáveis e lamento muito por isso. É realmente uma tristeza grande ler aquilo.

Vermelho - Nas eleições presidenciais de 2010 o jornalista Amaury Ribeiro Júnior (autor do livro) foi pivô de denúncias de arapongagem e na época o livro foi muito citado. Isso foi motivo de preocupação para a editora? Você acha que ajudou?
L.F.E. - Eu conheço o jornalismo Amaury Ribeiro Junior, jornalista investigativo, que não é rico e precisa trabalhar para viver. Ganhou muitos prêmios no Jornalismo, assim como eu, nós ganhamos o Esso, o maior prêmio do Jornalismo brasileiro, cada um com seu estilo. O que fizeram com ele na campanha da Dilma Roussef foi uma canalhice, ele nunca fez dossiê nem arapongagem, ele estava sendo contratado (nem chegou a ser) para, com seu talento investigativo, apurar fatos para a campanha. O dossiê do qual tanto se falava era este livro, que na época não estava pronto. E ele, claro, não ia vender o conteúdo do livro para campanha nenhuma, trata-se do trabalho de uma vida, 12 anos de investigação, Eu não tive absolutamente nenhuma preocupação. Eu li o livro antes de publicar, é claro. Não cortei uma linha. Na verdade, acrescentei meia dúzia de linhas, em trechos que pediam um pouco mais de pimenta. Com a concordância do autor.

Vermelho - O ex-presidente FHC declarou nesta segunda (12), durante sabatina a repórteres, que "O autor desse livro está sendo processado. Está na Polícia Federal. Até lá, quem está sob judice é ele.", saindo em defesa de José Serra. Vocês aguardam ataques contra o autor na tentativa de abalar a credibilidade das denúncias expostas no livro? O autor e a editora possuem alguma estratégia para rebater essas críticas?
L.F.E. -O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso está mal informado a respeito do caso. Vai ter que puxar as orelhas de sua assessoria, porque Amaury Ribeiro está respondendo a processos assim como o próprio Fernando Henrique já respondeu e eu também. Ser processado não é desonra. O que desonra é se somos justamente condenados por algum crime.

Vermelho - Qual a repercussão dessas denúncias em sua opinião no cenário político? Seria o fim da trajetória política de José Serra? Acha que haverá investigação do Ministério Público?
L.F.E.- A repercussão é enorme, espantosa. Não sei se é o fim de José Serra, ele precisa se defender. E se ele não sabia de nada do que sua filha e seu genro e amigos faziam? E se fizeram tudo aquilo em nome dele, coitado? O problema é que ele está calado e usando seus meios, que todos conhecem, para abafar o caso. Isso é muito suspeito. Quanto ao Ministério Público, que investiga todo mundo com base em qualquer denuncia, emails, recortes de jornais, imagino que vai entrar no caso, sim.

Vermelho - Você é um jornalista premiado e teve sua trajetória profissional marcada por vitórias e polêmicas. Incluindo um Prêmio Esso por ‘Geração Abandonada’. Você tem predileção por histórias polêmicas? Como faz a seleção de seus temas?
L.F.E. - Bem, eu tenho orgulho de minha carreira, eu fui jornalista em jornais e na TV dos 23 aos 39 anos, deixei meu emprego muito cedo, porque já havia chegado ao topo e não queria mais ser subordinado a um patrão. Ganhei minha liberdade e sou uma pessoa totalmente feliz. Nunca pensei em ficar rico, tenho os pequenos negócios da família, a editora, estou produzindo filmes, e presto consultoria (de verdade!) para pouquíssimos amigos do sindicalismo e da política. Não é que tenho predileção por histórias polêmicas. O fato é que vivemos tempos em que buscar a verdade já é, em si, procurar polêmica.

Vermelho - 'Geração abandonada´ provocou a ira de alguns dos jovens integrantes do movimento punk paulistano, como o músico Clemente, líder da banda punk Inocentes, que chegou a falar: “Foi a coisa mais estúpida que já vi escrita sobre punk”. Como foi sua reação à reação deles? Chegou a conversar com eles sobre isso, já que o Clemente chegou a escrever para o jornal reclamando?
L.F.E.-Eu não costumo debater com personagens de reportagens. Eu continuo fazendo jornalismo. Onde está o Clemente?

*de São Paulo para o Vermelho