domingo, 12 de agosto de 2012

"Ensaio sobre a cegueira"

Há alguns anos tenho este maravilhoso filme baseado no magnífico livro do grande escritor português, José Saramago: o único a falar a língua portuguesa que ganhou o prêmio Nobel de Literatura. O filme abre para diversas possibilidades de discussões existênciais, sociológicas, psicológicas e, claro, filosóficas. o diretor, o brasileiro Fernando Meirelles; uma das principais atrizes também é brasileira, Alice Braga, e filmado, dentre outras cidades, em São Paulo, no Vale do Anhangabaú:


Por que lembrei-me dele novamente agora? Por estar revendo-o hoje para passar em aula (e ter que "editar" algumas partes) e ver somente agora o "bonus", de onde tirei algumas falas de seus atores, diretores, etc, bastante interessantes para refletirmos acerca das diversas propostas do livro, do filme, da IDEIA...










"O filme é um dizer de que quem tem olhos numa terra de cegos...."

"É uma metáfora wsobre nossa sociedade e o fato de sermos todos cegos"

"Sobre a fragilidade da civilização. Quando uma coisa cai, tudo o mais desmorona..."
"Certos aspectos da sua personalidade vêm a tona (em determinadas situações limite) vem á tona e que poderiam passar a vida toda escondidos"

"Você precisa deles e eles precisam de você, eles são você, nós somos todos iguais"

"Quem somos nós? Qual a nossa responsabilidade pelo ooutro, pelo que fazemos todos os dias? "

"O que aconteceria se isso realmente acontecesse? Se houvesse um acidente e toda essa estrutura social que temos como certa, ou uma coisa tão simples, como nossa visão, se tudo isso acabasse? Como nós reformunlaríamos ou reimaginaríamos a forma como olhamos o outro e vemos o outro?"

"estar cego é aceitar a humilhação"

"Trata-se da humanidade, do ser humano. Nós somos assim. Nós nos achamos muito civilizados, muito sofisticados, mas se você não tiver comida, ou se estiver numa situação, quando falta algo, você se torna o que vemos aqui. "

"Esse filme não é apenas uma criação, ele diz muito sobre quem nós realmente somos"

E este é Saramago, tem muito mais a nos dizer, pena sua voz ter calado em 2010, mas sua obra, como toda obra de pensador, é eterna:




E... domingo é dia de FAUSTÃO e GUGU...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Todo imbecil nem hesita, nem pergunta... sabe tudo!!

“Eu vou apresentar uma canção que é uma homenagem a todo mundo que teve dúvida sempre – é um protesto estético sexual carnavalesco de esquerda a todos que tiveram certeza absoluta o tempo todo – é o reconhecimento público de que nunca vi um imbecil hesitar – é um protesto estético e claro contra todos os grandes pais, salvadores da humanidade, os heróis... mistérios..., Viva a dúvida!” (Fala de Oswaldo Montenegro em show...)


Mistérios
Oswaldo Montenegro

Tudo o que eu pensei saber ainda é mistério
 qual é a relação de Crato lá com New Orleans?
 a chave do amor é uma risada ou é um jeito sério?
 é singular o fecho todo ou já são vários fins?
 é sempre o mesmo Deus ou troca como um Ministério?
 é sempre a mesma afirmação ou já são vários sins?
 é cheia a taça da paixão ou é um rio estéril?
 são sete demos musicais ou doze querubins?
 se a vida continua ou não ainda é mistério
 o ciclo começa por onde: noite ou manhã?
 o barco do destino é uma prisão ou é um grande império?
 quem é que descerá dos céus nos braços de Tupã?
 é sempre o mesmo Deus ou troca  como um Ministério?
 depois que a gente já mentiu a coisa ainda é sã?
 a sorte é uma abstração, o azar é um mistério
 e Deus freqüenta a arquibancada do Maracanã

domingo, 29 de julho de 2012

SEM COMENTÁRIOS...

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Não é mera opinião...

Música pop está barulhenta demais e muito igual, diz a ciência

Pesquisadores espanhois analisaram arquivo de canções entre 1955 e 2010 e descobriram que música está mais barulhenta e acordes, melodias e timbres, muito parecidos...




etc,etc, etc,etc,etc,etc,etc,etc,etc,etc,etc,etc,etc,etc,


Como já suspeitavam os maiores de 35 anos, a música pop atual está mais barulhenta, e parece tudo igual, segundo cientistas da Espanha.
Eles compararam um enorme arquivo chamado Million Song Dataset, que "traduz" o conteúdo de letra e música em dados que podem ser esmiuçados, e assim analisaram canções populares feitas entre 1955 e 2010.
Com o uso de complexos algoritmos, eles descobriram que as canções pop se tornaram intrinsecamente mais barulhentas e mais insípidas em termos de acordes, melodias e timbres.
"Encontramos evidências de uma progressiva homogeneização do discurso musical", disse à Reuters Joan Serra, especialista em inteligência artificial do Conselho Nacional Espanhol de Pesquisas, que liderou o estudo.
"Em especial, obtivemos indicadores numéricos de que a diversidade de transições entre as combinações de notas --grosso modo, os acordes mais as melodias-- diminuiu consistentemente nos últimos 50 anos".
Eles também mostraram que a chamada paleta de timbres empobreceu. A mesma nota tocada no mesmo volume por um piano ou um violão, por exemplo, tem timbres diferentes. Ou seja, os pesquisadores concluíram que o pop moderno tem uma variedade mais limitada de sons.
Há muito tempo a indústria fonográfica é acusada de aumentar o volume das gravações, travando uma "guerra sonora", mas Serra disse que essa foi a primeira vez que isso foi mensurado com base em um grande bancos de dados.

fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/ciencia/2012-07-26/musica-pop-esta-barulhenta-demais-e-muito-igual-diz-a-ciencia.html

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O primeiro aluno da classe


Clarice Lispector   (Ucrânia, 1925 - Brasil, 1977)

Seu segredo é um caracol. O cabelo é bem cortado, os olhos são delicados e
atentos. Sua cortês carne de nove anos ainda é transparente. É de uma polidez
inata: pega nas coisas sem quebrá-las. Empresta livros para os colegas, ensina a
quem lhe pede, não se impacienta com a régua e o esquadro, quando há tanto
aluno desvarrado. Seu segredo é um caracol. Do qual não esquece um instante.
Seu segredo é um caracol que o sustenta. Ele o cria numa caixa de sapato com
gentileza e cuidado. Com gentileza diariamente finca-lhe agulha e cordão. Com
cuidado adia-Ihe atentamente a morte. Seu segredo é um caracol criado com
insônia e precisão.

domingo, 10 de junho de 2012

A evolução da espécie...

                                          Imagem retirada de: http://www.humornaciencia.com.br/blog/2008/07/homem-das-cavernas-moderno/
                                                       
                                                  O avanço da vida urbana...
             mudou o comportamento dos homens das cavernas?

Continua querendo deixar suas imagens e nomes nas paredes
Pintando e furando seus corpos
Brigando por fêmea (ou por macho)
Brigando por território
Matando os animais para comer
Não sabendo se comunicar
Torcendo por ver os outros se matarem
Usando todos os recursos naturais sem preocupação (só que agora degradamos em escala muito maior e ainda produzimos muito lixo...)
Não aprendendo a fazer o fogo, mas seguindo quem  sabe ou quem tem o fogo!
...
Vejam o filme "A guerra do Fogo" e depois me respondam a questão do início desta postagem...


FILME COMPLETO: http://www.youtube.com/watch?v=5bsjJzG-vEE&feature=related 
(em espanhol, mas como quase não tem fala, não há problema...)

sábado, 9 de junho de 2012

HOMENAGEM A PAGU!


Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagu, (São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 — Santos, 12 de dezembro de 1962) foi uma escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista e jornalista brasileira. Teve grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922, embora não tivesse participado da Semana da Arte Moderna porque, na época, contava apenas com onze anos de idade.
Militante comunista foi a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas.


                                                                                                        "Nada mais do que nada
                                                                    Porque vocês querem que exista apenas o nada
                                                                                                              Pois existe o só nada”

                                                                                Trecho do poema “Nothing” de Pagu/Patricia Rehder Galvão.
                                                                                                              (Publicado n’A Tribuna, Santos/SP, em 23/09/1962).
                                                                                                             POEMA COMPLETO
Música em sua homenagem:

Pagu.

Rita Lee

Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Uh! Uh! Uh! Uh!...
Eu sou pau prá toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Hum! Hum! Hum! Hum!
Minha força não é bruta
Não sou freira
Nem sou puta...
Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem
Nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...
Ratatá! Ratatá! Ratatá!
Taratá! Taratá!...
Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque
Hanhan! Ah! Hanran!
Uh! Uh!
Fama de porra louca
Tudo bem!
Minha mãe é Maria Ninguém
Uh! Uh!...
Não sou atriz
Modelo, dançarina
Meu buraco é mais em cima
Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...
Nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...(2x)
Ratatá! Ratatatá
Hiii! Ratatá
Taratá! Taratá!...

SOBRE DIREITOS HUMANOS...

Kenarik Boujikian: Estado é conivente com humilhação de preso pela imprensa

* transcrição de entrevista publicada no site viomundo (http://www.viomundo.com.br/entrevistas/kenarik-boujikian-estado-e-conivente-com-humilhacao-de-preso-pela-imprensa.html)

Desembargadora Kenarik Boujikian: “Ninguém, muito menos a polícia e as demais instituições estatais podem expor uma pessoa de forma humilhante, seja ela quem for, seja ela suspeita ou autora de crime”
por Conceição Lemes

Em 10 de maio, o programa Brasil Urgente Bahia exibiu, e a Band reprisou nacionalmente, a matéria Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência, da repórter Mirella Cunha.



 Repugnante. Ultrajante. Degradante.

Porém, só a partir de 21 de maio, quando o vídeo caiu nas redes sociais, o episódio ganhou repercussão nacional.
O jornalista e blogueiro Renato Rovai foi o primeiro a denunciar a barbaridade: A repórter loira, o suposto negro estuprador e uma sequência nojenta.
Um grupo de jornalistas enviou carta aberta ao governador, ao Ministério Público e à Defensoria Pública do Estado condenando os abusos de programas policialescos na Bahia. O Ministério Público Federal decidiu investigar o caso.
Indignado, o baiano Gerson Carneiro, leitor do Viomundo e defensor de causas lúcidas e injustiçadas, nos mandou o link do vídeo, com esta mensagem:
“Poxa, independentemente de qualquer culpa do rapaz, isso não se faz. Todos os preconceitos estão aí. Um negro, pobre, acusado de estupro, sem advogado, algemado, acuado por uma loira detentora da situação naquele momento. O rapaz indefeso responde ingenuamente aos deboches da moça. Jornalismo tinha que ter um órgão regulador como tem Direito, Medicina, Engenharia, Arquitetura…”

Dias depois, Rovai fez outra denúncia: novo vídeo do caso Mirella-Band compromete apresentador Uziel Bueno, famoso na Bahia pela sua agressividade.



Rovai observa:
O vídeo tem montagens típicas de internet, como repetições das falas e legendas, mas deixa evidente e claro que Uziel Bueno é tão responsável quanto Mirella Cunha neste caso.
Num primeiro momento, Uziel insinua com dois dedos que vai fazer o exame de próstata em Paulo Sérgio. Depois, com uma folha de sulfite enrolada simulando um pênis, repete as provocações.
Mandamos os dois links à doutora Kenarik Boujikian Felippe, que é co-fundadora e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia (AJD), desembargadora no Tribunal de Justiça de São Paulo e ex-membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.
“É pior do que havia lido”, reagiu, no ato. Daí nasceu a nossa entrevista.
Viomundo – Se tivesse de dar uma nota para a entrevista feita pela repórter da Band e os comentários do apresentador do programa, que também é jornalista, qual seria?
Kenarik Boujikian — Zero para o Jornalismo, zero para o Estado.
Viomundo — Por quê?
Kenarik Boujikian – O Jornalismo e o Estado não cumpriram a regra essencial da Constituição Federal: a dignidade humana é fundamento da República, que se constitui em um Estado Democrático de Direito.
É inaceitável, em pleno século XXI, um jornalista tratar um ser humano sem o menor respeito, como se estivéssemos na Inquisição. Se jornalistas, com a co-responsabilidade das empresas para qual trabalham, atuam com este proceder, só o fazem porque existe a conivência dos órgãos de Estado.
Viomundo — Legalmente, a polícia pode expor um preso assim?
Kenarik Boujikian — Ninguém, muito menos a polícia e as demais instituições estatais podem expor uma pessoa de forma humilhante, seja ela quem for, seja ela suspeita ou autora de crime. A nossa Constituição Federal, no artigo 5º, assegura aos presos o respeito à integridade física e moral e o direito de personalidade.
No tocante ao Jornalismo, este repulsivo episódio, me faz lembrar as palavras de Francisco José Karam (Jornalismo, Ética e Liberdade):
É necessária a defesa da “vinculação da realização ética da profissão com medidas efetivas para a democracia informativa nos meios de comunicação, incluindo políticas que favoreçam a segmentação do mercado, a diversificação da propriedade, o controle social sobre a mídia existente hoje e o acesso plural aos meios”.
Sem essas medidas, dificilmente os graves problemas pelos quais passam o Jornalismo brasileiro serão superados.
Viomundo – No Brasil, nós temos o Código de Ética, que lista uma série de deveres para os jornalistas.
Kenarik Boujikian – O que torna mais grave esse episódio. De acordo com artigo 6º do Código de Ética, é dever do jornalista, entre outros:
I – opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;
V – valorizar, honrar e dignificar a profissão;
VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
X – defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito;
XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;
Como não bastasse isso, dita o artigo 9º do mesmo Código de Ética, que a presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.
As imagens e o conteúdo da entrevista demonstram cabalmente que foi feita tábua rasa desses princípios, pois o que todos viram foi barbárie.
Viomundo – Por que a Justiça faz vista grossa a esses abusos?
Kenarik Boujikian – Não se pode generalizar, mas, infelizmente, frequentemente, os delegados abrem as portas das delegacias e permitem que os jornalistas tenham contato direto com as pessoas detidas. Escancaram a entrada dos distritos policiais para que jornalistas violem direitos primários, sem qualquer cerimônia, com plena aquiescência.
Os promotores de Justiça e os defensores públicos não atuam em defesa do Estado e Direito, exigindo medidas do Judiciário para que esta conduta cesse ou não fique impune. Assim, o Judiciário permanece inerte e com tal omissão atesta a validade dessas condutas.
Interessante que, na mesma semana em que as redes sociais mostraram a sua indignação com esta entrevista humilhante, vimos, na chamada CPI do Cachoeira, outra pessoa ser inquirida e fazer uso do seu direito constitucional de permanecer em silêncio. Esse é direito sagrado, fundamental. O que se espera de um jornalista é que, no mínimo, atente a isso.
Qual a diferença entre esses dois casos? O jovem que foi exibido e humilhado para todos verem, inclusive seus familiares, era negro, de baixa escolaridade e certamente não tinha condições de contratar advogado nem lhe foi disponibilizado um defensor público. Na Bahia, como em outras unidades da federação, o número de defensores públicos é irrisório perto da demanda.
O outro tinha advogado constituído, estava em outra esfera econômica/social/política. Só que todos os cidadãos, sem exceção, têm direito à orientação por advogados ou defensores públicos para só depois se manifestarem. E isso – atenção! — em qualquer espaço.
Viomundo – Ou seja, há uma conivência do Estado. Por quê?
Kenarik Boujikian –Em certa medida, esta conivência estatal é reflexo da ditadura civil-militar que o Brasil viveu. Naquele período, o Estado elegeu como seus inimigos aqueles que queriam outro país. Contra eles, tudo era possível, pois inimigos não são considerados pessoas, apenas inimigos e como tais não possuem o atributo da dignidade, assim foram torturados, desrespeitados, desaparecidos e assassinados.
No dias de hoje, como legado daquela cultura, os inimigos eleitos pelo Estado e também pela mídia são os pobres e marginalizados, tratados como se coisas fossem.
Também repercute, em caráter individual, o desenvolvimento moral das pessoas que exercem poderes de Estado, que não conseguem se colocar na posição do outro. Não conseguem usar o “véu da ignorância” e se colocar na posição das outras pessoas. Não conseguem ver os que são diferentes de si por certas circunstâncias, como pobreza, pouca instrução, negros, como seus iguais, possuidores dos mesmos atributos. Se conseguissem fazer este exercício, não atuariam de modo perverso.
Viomundo – Existe alguma legislação em relação à exposição de pessoa presa?
Kenarik Boujikian – Na Justiça paulista, há cerca de três décadas, o magistrado José Gaspar Gonzaga Franceschini, na ocasião Corregedor da Polícia e dos Presídios, por meio de portaria, inaugurou a proibição para impedir que fosse feita exposição dos presos. Depois, o corregedor Geraldo Pinheiro Franco e outros juízes da capital seguiram esses nortes.
Foram medidas administrativas e não jurisdicionais, que bem poderiam servir de inspiração para as Corregedorias Gerais de todo o Brasil ou mesmo para o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de modo que todas as situações prisionais fossem alcançadas. É para que pessoas sujeitas ao poder estatal — sob custódia do Executivo e Judiciário – não sejam expostas, observando que, por vezes, só exposição delas já caracteriza a execração.
Agora, não expor o preso não significa que ele não possa dar entrevista. Com certeza, ele pode ter interesse em fazê-lo. Mas deve ser de forma verdadeiramente consentida e somente depois de conversar com seu advogado/defensor, que poderá dizer quais os direitos que lhe estão assegurados.
Viomundo – Nessa altura, alguns vão questionar: isso não cercearia a liberdade de imprensa?
Kenarik Boujikian — Os direitos de expressão, informação e imprensa são direitos interligados. Em 1776, portanto há 236 anos, a Declaração de Direitos do Estado de Virgínia, nos EUA, reconheceu explicitamente a liberdade de expressão através da imprensa.
Em 1791, a Emenda número 1 da Constituição dos Estados Unidos da América garantiu este direito. E em 1789 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão contemplou esses direitos estabelecendo:
“A livre comunicação das idéias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo o cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo todavia pelos abusos desta liberdade nos termos previstos em lei”.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, em seu artigo 19, acolheu tais direitos e também expressamente o direito de informação. Destaco ainda: o artigo 19 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, de 1966; o Convênio Europeu para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais; e o artigo 13 do Pacto de San José da Costa Rica.
Todo o conteúdo de normas internacionais, acrescido dos princípios constitucionais, exige a conduta ética do jornalista. Isso implica reconhecer que a dignidade que cada ser humano carrega é o limitador da sua atividade.
Logo, são inadmissíveis ironias, chacotas, humilhações, preconceitos, desrespeitos, gritos, ironias, gozações. Só pode entrevistar a pessoa sob custódia dentro desses padrões. Do contrário, o jornalista estará violando o direito do indivíduo entrevistado e de todos nós.
Viomundo – O que fazer?
Kenarik Boujikian — É preciso encontrar soluções fora do Sistema de Justiça, que deve ser o último patamar a ser perseguido para a concretização dos direitos.
Outras esferas, mais efetivas e gerais, devem atuar para que o sistema de liberdade de expressão, pensamento e imprensa funcionem para o aprimoramento da democracia e do ser humano.
O Ministério das Comunicações, por exemplo, possui prerrogativas no sistema de concessão de TVs, mas é absolutamente omisso na tarefa de resguardar os direitos de cidadania.
Também é necessário pensar na criação de mecanismos de controle social contra práticas discriminatórias e violadoras dos direitos humanos praticadas pela mídia. Isso já existe em outros países, como a França, e não é absolutamente sinônimo de censura .
Espero que esse episódio da Bahia seja o estopim para uma maior reflexão sobre a necessidade de caminhos regulatórios da mídia que garantam a liberdade de imprensa no mesmo patamar da defesa dos direitos dos cidadãos, que não podem ser aviltados, quando lhe tocam o espaço da dignidade.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Ora, porque foi proibida????

Campanha publicitária  proibida da Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos:



 


Pesquisa comprova: mídia demoniza o MST

O Intervozes publica pesquisa que analisa a cobertura da mídia sobre o MST durante a CPMI de 2010; lançamento será dia 24, em Brasília
Coletivo Intervozes
Uso de termos negativos, pouca relevância dada às bandeiras do Movimento e exclusão do MST como fonte. O que já era percebido pelos movimentos sociais agora foi comprovado em pesquisa que analisou cerca de 300 matérias sobre o MST em TV, jornal impresso e revistas. O resultado desse trabalho será lançado na quarta-feira, dia 24, às 19h, na Tenda Cultural do Acampamento Nacional da Via Campesina (Estacionamento do Ginásio Nilson Nelson), em Brasília.
O relatório, intitulado “Vozes Silenciadas”, analisou as matérias que citaram o MST em três jornais de circulação nacional (Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo); três revistas também de circulação nacional (Veja, Época e Carta Capital); e os dois telejornais de maior audiência no Brasil: Jornal Nacional, da Rede Globo, e Jornal da Record. O período pesquisado foi de 10 de fevereiro a 17 de julho, duração das investigações de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre o MST.
O lançamento contará com a presença de Mônica Morão, professora da UFC e responsável pela pesquisa, de Leandro Fortes, jornalista da revista Carta Capital, e da Coordenação do MST. O relatório foi realizado pelo Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social com o apoio da Fundação Friedrich Ebert e da Federação do Trabalhadores em Radiodifusão e Televisão (FITERT).
O estudo
MST é retratado como violento e suas bandeiras recebem pouco destaque. A pesquisa concluiu que o movimento, na maioria dos casos, não era central nas matérias que o citam. O tema predominante foi as eleições (97 inserções), com uma grande diferença em relação ao segundo lugar, o Abril Vermelho (42 inserções). A CPMI foi tema apenas de oito matérias (ou 2,6% do total). Nas matérias sobre eleições, o MST não apareceu nos debates sobre políticas agrárias, mas sim como ator social mencionado de forma negativa pelos dois principais candidatos do pleito nacional. O Movimento aparece em segundo lugar no ranking de fontes ouvidas (em primeiro lugar estão matérias que não ouvem nenhuma fonte). Porém, essa colocação representa apenas 57 ocorrências num universo de 301 matérias.
Quase 60% das matérias utilizaram termos negativos para se referir ao MST e suas ações. O termo que predominou foi “invasão” e seus derivados, como “invasores” ou o verbo “invadir” em suas diferentes flexões. Ao todo, foram usados 192 termos negativos diferentes, entre expressões que procuram qualificar o próprio MST ou suas ações.
A maioria dos textos do universo pesquisado cita atos violentos, o que significa que a mídia faz uma ligação direta entre o Movimento e a violência. Não bastasse essa evidência, dentre as inserções que citam violência, quase a totalidade (42,5% do total de matérias) coloca o MST apenas como autor.
SERVIÇO
Lançamento do relatório “Vozes Silenciadas – A cobertura da mídia sobre o MST durante a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito”
Data: 24/08/2011
Horário: 19h
Local: Tenda Cultural do Acampamento Nacional da Via Campesina (Estacionamento do Ginásio Nilson Nelson) – Brasília/DF.
Mais informações: Gésio Passos – 61 3341-3637 – comunicacao@intervozes.org.br

fonte: http://www.reformaagraria.blog.br/2011/08/19/pesquisa-comprova-midia-demoniza-o-mst/

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Da tortura à verdade e sua comissão...






A presidente Dilma Rousseff se emocionou nesta quarta-feira (16/05) ao dar posse aos sete membros da Comissão da Verdade, que terão a tarefa de esclarecer violações de direitos humanos durante a ditadura militar.

"A ignorância sobre a história não pacifica, pelo contrário, mantém latentes mágoas e rancores", disse a presidente em seu discurso com voz embargada.
A cerimônia ocorreu na presença dos ex-presidentes José Sarney (PMDB), Fernando Collor (PTB), Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

fonte: http://tvig.ig.com.br/noticias/politica/dilma-se-emociona-durante-discurso-8a498026374d354b013756e2bd0d019f.html


"A VERDADE É FILHA DO TEMPO, NÃO DA AUTORIDADE"... (GALILEU)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Fábula das Abelhas, de Bernard Mandeville


A Fábula das Abelhas, de Bernard Mandeville

Segue abaixo, um dos mais polêmios poemas da história. Uma  obra de vital importância dentro do contexto da Economia Clássica, tendo  sido comentada, inclusive, por Adam Smith. Dentro de algum tempo,  também estaremos postando aqui nosso comentário. Aguardem!
Uma grande colméia, repleta de abelhas,    
Que viviam com luxo e comodidade,     
Porém eram tão famosas por leis e armas     
Quanto por copiosos e precoces enxames,     
Era tida como o grande berço     
Das ciências e da indústria.     
Não havia abelhas que possuíssem governo melhor,     
Maior volubilidade ou menos contentamento;     
Não eram escravas da tirania,     
Nem governadas pela desenfreada Democracia,     
E sim por reis, que não podiam errar,     
Pois seu poder era restrito por leis.
Esses insetos viviam como os homens,    
E todas as nossas ações executavam em miniaturas;     
Faziam tudo o que se faz na cidade,     
E o que é da alçada da espada ou toga,     
Embora os trabalhos engenhosos dos membros minúsculos     
De tão ligeiros escapassem à vista humana.     
Entretanto, não temos máquinas, trabalhadores,     
Navios, Castelos, armas, artífices,     
Ofício, ciência, loja ou instrumento     
Para os quais não possuíssem equivalente;     
Estes, sendo sua língua desconhecida,     
Devem ser chamados com os nomes que damos aos nossos.
Como concessão, entre outras coisas,    
Queriam dados, mas tinham reis,     
E estes tinham guardas, do que se pode, acertadamente,     
Concluir que algum jogo havia,     
A menos que exista um regimento     
De soldados que não pratique nenhum.     
Grandes números abarrotavam a fértil colméia,     
Porém essa multidão fazia com que prosperassem;
Milhões empenhavam-se em satisfazer    
Mutuamente sua cupidez e vaidade,     
Enquanto outros milhões labutavam     
Para ver destruídas suas obras.     
Abasteciam metade do universo,     
Porém tinham mais trabalho que trabalhadores.     
Alguns, com grande capital e pouco esforço,     
Lançavam-se a negócios de fabulosos lucros;     
Outros estavam condenados à foice e à espada,     
E a todos esses árduos e cansativos ofícios     
Nos quais, voluntariamente, desgraçados suam dia após dia,     
Esgotando as forças e os membros para poderem comer,
Enquanto outros se dedicavam a mistérios    
Aos quais poucos encaminhavam aprendizes,     
Que não requeriam outro cabedal senão o descaramento,     
E podiam estabelecer-se sem um centavo sequer,     
Como trapaceiros, parasitas, gigolôs, jogadores,     
Punguistas, falsários, charlatães, adivinhos     
E todos os que, inimigos     
Do trabalho honesto, astuciosamente     
Convertiam em seu próprio benefício     
O trabalho do afável e incauto próximo.
A esses chamavam velhacos, mas exceto pelo nome,    
Os austeros industriosos eram iguais;     
Todos os negócios e cargos tinham algo de desonesto,     
Nenhuma profissão era isenta de embustes.
Os advogados, cuja arte tinha por base    
Suscitar contendas e dividir causas,     
Opunham-se a todos os registros, pois as trapaças     
Poderiam dar mais trabalho com propriedades hipotecadas,     
Como se fosse ilegal que o patrimônio de alguém     
Fosse conhecido sem uma ação judicial.     
Postergavam deliberadamente as audiências,     
Para embolsar polpudos honorários,     
E, para defender uma causa iníqua,     
Examinavam e observavam as leis,     
Como ladrões que espreitam lojas e casas     
Para descobrir qual o seu ponto fraco.
Médicos valorizavam fama e riqueza    
Acima da saúde dos depauperados pacientes     
Ou de sua própria habilidade; a maior parte estudava,     
Em vez de as regras da arte,     
Olhares graves e pensativos e atitudes apáticas,     
Para ganhar a simpatia do boticário     
E elogios das parteiras, sacerdotes     
E todos os que lidavam com nascimentos e funerais,     
Suportar a incessante tagarelice da tribo,     
E ouvir a tia da dona da casa prescrever,     
Com um sorriso afetado e um cortês “como vai?”     
Para bajular toda a família     
E, o que é o pior de todos os tormentos,     
Agüentar a impertinência das enfermeiras.
Entre os muitos sacerdotes de Júpiter,    
Contratados para invocar as bênçãos do céu,     
Alguns havia sábios e eloqüentes,     
Mas milhares lascivos e ignorantes;     
Contudo, todos preenchiam os requisitos que podiam ocultar     
Sua preguiça, luxúria, avareza e orgulho,     
Pelos quais eram tão famosos quanto alfaiates     
Por sonegar retalhos e marinheiros por rum.     
Alguns, magros e pobremente vestidos,     
Rezavam misticamente por pão,     
Com isso querendo dizer uma farta despensa,     
Contudo, literalmente, não recebiam nada além.     
E, enquanto esses santos labutadores passavam fome,     
Alguns preguiçosos a quem serviam     
Abandonavam-se ao ócio, com todas as graças     
Da saúde e da fartura nas faces.
Os soldados, que eram forçados a lutar,    
Se sobrevivessem, auferiam honrarias,     
Embora alguns, que se esquivavam de brigas sangrentas,     
Houvessem sido feridos na fuga.     
Alguns generais valentes combatiam os inimigos,     
Outros aceitavam suborno para deixa-los escapar;     
Alguns aventuravam-se sempre onde a luta era mais renhida,     
Perdiam ora uma perna, ora um braço,     
Até que, totalmente inválidos, eram postos de lado,     
E viviam com a metade do soldo,     
Enquanto outros nunca apareciam no campo de batalha,     
E ficavam em casa recebendo em dobro.
Seus reis eram servidos, porém astutamente    
Logrados pelo seu próprio ministério;     
Muitos, que pelo seu bem-estar arduamente trabalhavam,     
Roubavam a própria coroa a quem salvavam;     
As pensões eram pequenas, e eles viviam à larga,     
Porém jactavam-se de sua honestidade,     
Chamando, sempre que extrapolavam seus direitos,     
Gratificação a seu logro matreiro;     
E, quando entendiam seu jargão,     
Mudavam o nome para emolumento,     
Relutantes em ser concisos ou explícitos     
Com tudo o que se referisse a ganhos;     
Pois não havia abelha que não quisesse     
Ganhar mais, não direi, do que merecia,     
Porém do que ousava permitir que soubessem     
Aqueles que lhes pagavam, como jogadores     
Que, embora jogando limpo, nunca revelam     
Aos perdedores o quanto ganharam.
Mas quem pode enumerar todas as suas fraudes?    
O próprio material que na rua     
Vendiam como esterco para enriquecer o solo,     
Freqüentemente, como descobria o comprador,     
Era sofisticado com um quarto     
De pedras e argamassa imprestáveis,     
Embora pouca razão tivesse para queixar-se     
Aquele que também vendia gato por lebre.
A própria Justiça, célebre pela equanimidade    
Embora cega não perdera o tato;     
Sua mão esquerda, que deveria sustentar a balança,     
Deixara-a muitas vezes pender, subornada com ouro;     
E, conquanto parecesse imparcial,     
Quando se tratava de punição corporal,     
Alardeava seguir curso regular     
Em assassinatos e todos os crimes violentos,     
Porém alguns, primeiro mandados ao pelourinho por desonestidade,     
Eram enforcados na própria corda com que haviam sido açoitados.     
Contudo, pensava-se, a espada que ela empunhava     
Reprimia apenas os pobres e desesperados     
Que, impelidos por mera necessidade,     
Eram amarrados à árvore dos desgraçados     
Por crimes que não mereciam tal destino,     
Senão para proteger os ricos e poderosos.
Assim, o vício imperava em cada parte,    
Embora o todo fosse um paraíso;     
Incensados na paz, temidos na guerra,     
Tinham o respeito dos estrangeiros,     
E, na abundância de riqueza e vidas,     
Eram a força preponderante entre todas as colméias.     
Tais eram as bênçãos daquele estado     
Que seus crimes conspiravam para torna-lo grandioso;     
E a virtude, que com a política     
Aprendera milhares de artifícios sutis,     
Tornara-se, pela feliz influência,     
Amiga do vício, e desde então     
O pior elemento em toda a multidão     
Fazia algo para o bem comum.     
Era essa a estatística que regia     
O todo, do qual cada parte reclamava;     
Isso, como na harmonia musical,     
Conciliava as dissonâncias no geral.     
Grupos diretamente opostos     
Ajudavam-se mutuamente, como por perversidade,     
E a temper ança e a sobriedade     
Serviam à embriaguez e à gula.
A avareza, raiz do mal,    
Esse maldito, perverso, pernicioso vício,     
Era escrava da prodigalidade,     
O pecado nobre; enquanto o luxo     
Empregava um milhão de pobres,     
E o orgulho odioso, mais um milhão.     
A própria inveja e a vaidade     
Eram ministros da indústria;     
Sua extravagância predileta, a volubilidade     
No comer, vestir-se e mobiliar,     
Tornara-se, vício estranho e ridículo,     
A própria roda que movia os negócios.     
Suas leis e seus trajes eram, igualmente,     
Coisas mudáveis,     
Pois, o que em certo momento era bem visto,     
Meio ano depois tornava-se crime.     
Entretanto, enquanto assim alteravam suas leis,     
Sempre encontrando e corrigindo imperfeições,     
Através da inconstância reparavam falhas     
Que a prudência não poderia prever.
Assim, o vício fomentava a engenhosidade    
Que, unida ao tempo e ao trabalho,     
Propiciava as comodidades da vida,     
Seus verdadeiros prazeres, confortos e facilidades,     
A tal ponto que mesmos os pobres     
Viviam melhor que os ricos de outrora,     
E nada mais havia a acrescentar-se.
Como é vã a felicidade dos mortais!    
Tivessem eles noção dos limites da bem-aventurança,     
E de que a perfeição, cá embaixo,     
Está acima do que os deuses podem conceder,     
E os queixosos animais ter-se-iam contentado     
Com ministros e governo.     
Porém eles, a cada sobrevento,     
Como criaturas irremediavelmente perdidas,     
Maldiziam os políticos, o exército, as frotas,     
Enquanto cada um gritava “Abaixo os desonestos!”,     
Apesar de cônscio dos próprios defeitos,     
Dos demais, barbaramente, não tolerava nenhum.
Um, que conseguira patrimônio principesco    
Enganando o patrão, o rei e os pobres,     
Atrevia-se a bradar “Que a terra pereça     
Por todas as suas fraudes!”; e quem pensais”     
Que o patife pregador do sermão censurava?     
A um luveiro, que vendera couro grosseiro por pelica!
A menor coisa feita incorretamente,    
Ou que obstasse aos negócios públicos,     
E já todos os velhacos gritavam disfarçadamente:     
“Oh, Deus! Se ao menos houvesse honestidade!”     
Mercúrio sorria ante a imprudência,     
E outros chamavam-na falta de senso,     
Sempre a protestar contra o que amavam.     
Porém, Júpiter, cheio de indignação,     
Finalmente, irritado, jurou livrar     
Da fraude a vociferante colméia. E assim o fez.     
No mesmo momento, ela se foi     
E a honestidade encheu seus corações;     
Revelaram-se-lhes, como na árvore do conhecimento,     
Os crimes dos quais se envergonharam,     
E que então, em silêncio, confessaram,     
Enrubescendo ante sua torpeza,     
Como crianças que, desejando esconder suas faltas,     
Pela cor denunciam os pensamentos,     
Imaginando, ao serem olhados,     
Que os ou tros vêem o que fizeram.
Porém, oh deuses! Que consternação!    
Quão grande e súbita foi a alteração!     
Em meia hora, no país inteiro,     
A carne caiu um pêni por libra;     
A máscara da hipocrisia despencou,     
Do grande estadista ao palhaço;     
E alguns, tão conhecidos pela aparência afetada,     
Pareceram estranhos com a sua natural.
O tribunal ficou silencioso a partir de então,    
Pois agora os devedores, voluntariamente, pagavam     
Mesmo o que os credores haviam esquecido,     
E estes desobrigavam os que não podiam saldar as dívidas.     
Os que estavam sem razão calaram-se     
E desistiram dos esfarrapados e vexatórios processos,     
Com o que, já que ninguém prospera menos     
Do que advogados em uma colméia honesta,     
Todos, exceto os que tinham grandes posses,     
Partiram, levando consigo seus tinteiros.
A justiça enforcou alguns, outros libertou,    
E, após esvaziarem-se as prisões,     
Não mais sendo necessária sua presença,     
Retirou-se com todo o seu cortejo e pompa.     
Na vanguarda marcharam ferreiros, com cadeados e grades,     
Grilhões e portas com chapas de ferro;     
A seguir, carcereiros, guardas e ajudantes;     
Á frente da deusa, a alguma distância,     
Seu fiel ministro principal,     
Dom Algoz, o grande executor da lei,     
Empunhando não a espada imaginária,     
Mas seus próprios instrumentos, o machado e a corda;     
Então, em uma nuvem, a bela de olhos vendados:     
A justiça em pessoa, impelida pelo ar;     
Em volta de sua carruagem, e na retaguarda,     
Seguiram sargentos, esbirros de todas a espécie,     
Beleguins e todos aqueles funcionários     
Que das lágrimas arrancam seu sustento.
Embora vivesse a medicina enquanto houvesse doentes,    
Ninguém prescrevia senão abelhas habilitadas,     
As quais dispersaram-se tanto pela colméia     
Que nenhuma precisava de condução;     
Deixaram de lado controvérsias inúteis e esforçaram-se     
Por livrar os pacientes do sofrimento;     
Abandonaram as drogas produzidas em países desonestos     
E usaram os produtos da sua própria terra,     
Sabendo que os deuses não mandam doenças     
A nações sem remédios.
O clero despertou da preguiça;    
Não mais delegaram suas incumbências às abelhas auxiliares;     
Isentos de vício, serviram pessoalmente     
Aos deuses, com oração e sacrifício.     
Todos os que eram inaptos, ou sabiam     
Serem dispensáveis seus serviços, retiraram-se;     
Nem havia trabalho para tantos     
(se é que os honestos precisam de algum).     
Somente uns poucos permaneceram com o sumo-sacerdote,     
A quem os demais juraram obediência;     
Ele próprio ocupou-se de assuntos divinos,     
Cedendo a outro os negócios de estado.     
Não escorraçou de sua porta nenhum faminto,     
Nem roubou aos pobres seu salário;     
Em sua casa os esfomeados foram alimentados,     
Os subordinados tiveram pão sem restrições,     
E os viajantes necessitados, cama e comida.
Entre os grandes ministros do rei    
E todos os administradores subalternos     
A mudança foi grande pois, frugalmente,     
Passaram a viver de seu salário.     
Que uma abelha pobre viesse dez vezes     
Pedir o que lhe era devido, uma quantia irrisória,     
E por um escrivão bem pago fosse obrigada     
A dar algo por fora ou nunca receber,     
Seria agora considerado absoluta desonestidade,     
Embora antes fosse prerrogativa.     
Todos os lugares, antes administrados por três,     
Que vigiavam mutuamente suas velhacarias,     
E muitas vezes, por camaradagem,     
Promoviam os roubos uns dos outros,     
Felizmente passaram a ser geridos por um só;     
Com isso, foram-se outros milhares.
Nenhuma honra agora poderia satisfazer-se    
Em viver devendo pelo que gastava;     
Librés ficaram expostas em lojas de penhores,     
Desfizeram-se de carruagens por uma pechincha,     
Venderam cavalos magníficos às parelhas,     
E casas de campo para saldar dívidas.
Evitou-se o gasto inútil tanto quanto a fraude;    
Não mais mantiveram exércitos no exterior;     
Riram-se da estima dos estrangeiros     
E das glórias vãs conseguidas com guerras;     
Lutaram, mas pelo bem da pátria,     
Quando o direito e a liberdade estavam em jogo.
Olhai agora a gloriosa colméia e vede    
Como se conciliam honestidade e negócios:     
O espetáculo terminou; esvaiu-se rapidamente,     
E apresentou-se com face bastante diversa,     
Pois não só foram-se aqueles     
Que somas vultosas gastavam anualmente,     
Mas multidões, que neles tinham seu ganha-pão,     
Foram diariamente forçadas a fazer o mesmo;     
Inutilmente buscara outros ofícios,     
Pois estavam todos superlotados.     
Caiu o preço da terra e das casas;     
Palácios maravilhosos, cujos muros,     
Como os de Tebas, foram feitos para o espetáculo.     
Puseram-se para alugar, enquanto os outrora garridos,     
Bem estabelecidos deuses domésticos ficariam     
Mais satisfeitos em morrer no fogo do que ver     
A modesta inscrição na porta     
Sorrir das soberbas que eles exibiam.     
A construção civil foi aniquilada,      
Não se empregaram mais artífices,     
Nenhum pintor ganhou fama por sua arte,     
Canteiros e entalhadores não se tornaram conhecidos.
Os que permaneceram tornaram-se moderados,    
Esforçaram-se não para gastar, mas para viver,     
E, tendo pago a conta da taverna,     
Resolveram lá não mais entrar.     
Nenhuma ex-noiva de taverneiro em toda a colméia     
Pôde, então, usar tecidos de ouro e prosperar,     
Nem perdulários adiantar tão grandes quantias     
Para borgonhas e verdascos.     
Foi-se o cortesão que com sua querida,     
Diariamente ali jantava um banquete de natal,     
Gastando, em duas horas de estada,     
O que sustentaria o dia todo uma tropa de cavalaria.
O arrogante Cloé, que para viver à grande,    
Fizera seu marido roubar ao Estado,     
Agora, contudo, vendeu sua mobília,     
Que fora saqueada nas Índias,     
Reduziu o dispendioso cardápio,     
E usou um ano inteiro os mesmo trajes duráveis:     
A era da futilidade e do capricho passou,     
E as roupas, bem como as modas, permaneceram.     
Tecelões que produziam ricos brocados     
E todos os ofícios subordinados     
Extinguiram-se. Ainda reinava a paz e a abundância,     
E tudo era barato, porém simples.     
A bondosa Natureza, livre do jugo dos jardineiros,     
Concedia todos os frutos no seu próprio tempo;     
Contudo, raridades não se podia mais obter     
Quando os esforços para consegui-las não eram pagos.
À medida que minguaram orgulho e luxo,    
Gradativamente deixaram os mares,     
Agora não os mercadores, mas companhias.     
Fecharam fábricas inteiras.     
Todas as artes e ofícios foram abandonados.     
O contentamento, ruína da indústria,     
Fê-lo apreciar seu estoque caseiro     
E não buscar nem cobiçar mais.
Assim, poucos permaneceram na vasta colméia;    
Não puderam manter nem a centésima parte     
Contra as afrontas dos numerosos inimigos,     
A quem, valentemente, enfrentavam,     
Até encontrar algum refúgio bastante fortificado,     
Onde morriam ou defendiam seu território.     
Não houve mercenários em seu exército;     
Bravamente, lutaram eles próprios.     
Sua coragem e integridade     
Foram finalmente coroadas com a vitória.     
Triunfaram, porém não sem custo,     
Pois milhares de abelhas pereceram.     
Calejadas dos árduos trabalhos e exercícios,     
Consideraram vicio a própria comodidade,     
O que aperfeiçoou de tal modo sua moderação.     
Que, para evitar extravagâncias,     
Voaram para uma árvore oca,     
Abençoadas com satisfação e honestidade.

O esculacho do torturador de Dilma.



vejam no site:http://www.viomundo.com.br/wp-content/uploads/2012/05/esculacho.jpg


Cem jovens do Levante Popular da Juventude fizeram o esculhacho do  tenente-coronel reformado Maurício Lopes Lima, que foi reconhecido pela  presidenta Dilma Roussef como torturador da Operação Bandeirante, no  município do Guarujá, no litoral de São Paulo (Rua Tereza Moura, 36).
Em depoimento à Justiça Militar, em 1970, quando tinha 22 anos, Dilma  afirmou ter sido ameaçada de novas torturas por dois militares  chefiados por Lopes. Ao perguntar-lhes se estavam autorizados pelo Poder  Judiciário, recebeu a seguinte resposta: “Você vai ver o que é o juiz  lá na Operação Bandeirante” (um dos centros de tortura da ditadura  militar).
Maurício Lopes Lima foi apontado pelo Ministério Público Federal  (MPF), em ação civil pública ajuizada em novembro de 2010, como um dos  responsáveis pela morte ou desaparecimento de seis pessoas e pela  tortura de outras 20 nos anos de 1969 e 1970. Segundo o MPF, o militar  foi “chefe de equipe de busca e orientador de interrogatórios” da  Operação Bandeirante (Oban) e do DOI/Codi.
Lopes nega ter torturado qualquer preso, incluindo a presidenta, mas  admite que a tortura era um procedimento comum à repressão. Em  entrevista ao jornal A Tribuna, de Santos, em 2010, declarou: “Eu sou  uma testemunha da tortura. Sim, eu sou. (…) a tortura, no Brasil, era  uma coisa comum (…) da polícia nossa.”
Em entrevista em 2003 ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, Dilma foi  perguntada de quem apanhava quando estava presa e respondeu: “O capitão  Maurício sempre aparecia”.
Dilma, que era uma das líderes da VAR-Palmares, foi presa em 16 de  janeiro de 1970. Ela foi brutalmente torturada e seviciada, submetida a  choques e pau-de-arara durante 22 dias. No depoimento à Justiça Militar,  em Juiz de Fora, em 18 de maio, cinco meses depois de ser presa, Dilma  deu detalhes da tortura no Dops. “Repete-se que foi torturada física,  psíquica e moralmente; que isso de seu durante 22 dias após o dia 16 de  janeiro (dia em que foi presa)”, diz trecho do depoimento.
Abaixo, leia a entrevista publicada pela Folha de S. Paulo, no 21 de junho de 2005, concedida em 2003 ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho.
Que lembranças a sra. guardou dos tempos de cadeia?
Dilma Rousseff – A prisão é uma coisa em que a gente se encontra com  os limites da gente. É isso que às vezes é muito duro. Nos depoimentos, a  gente mentia feito doido. Mentia muito, mas muito.
Em um dos seus depoimentos da fase judicial, a sra. denunciou  que o capitão Maurício foi ameaçá-la de tortura por estar indignado com  as propositais contradições de seus depoimentos.
Dilma – Voltei várias vezes para a Oban, a Operação Bandeirante.  Descobriam que uma história não fechava com a outra, e aí voltava. Mas  aí eu já era preso velho. Preso velho é um bicho muito difícil de pegar  na curva. Preso novo, você não sabe o tamanho da dor.
Como era essa história de mentir diante da tortura?
Dilma – A gente tinha que fazer uma moldura e só se lembrar da  moldura, da história que se inventava, e não saía disso. Tinha que ter  uma história. Na relação do torturador com o torturado a única coisa que  não pode acontecer é você falar “não falo”. Se você falar “não falo”,  dali a cinco minutos você pode ser obrigado a falar, porque eles sabem  que você tem algo a dizer. Se você falar “não falo”, você diz pra eles o  seguinte: “Eu sei o que você quer saber e não te direi”. Aí você  entrega a arma pra ele te torturar e te perguntar. Sua história não pode  ser “não falo”. Tem que ser uma história e dali para a frente você não  sabe mais nada, não pode saber.
É um jogo difícil.
Dilma – É uma arte. A dificuldade é convencê-lo de que você não sabe  mais do que aquela moldura. Não é um jogo só de resistência física, é de  resistência psíquica. Até porque uma das coisas que você descobre é que  você está sozinho.
Quais são as cenas que estão vindo na sua cabeça, agora?
Dilma – Eu lembro de chegar na Operação Bandeirante, presa, no início  de 70. Era aquele negócio meio terreno baldio, não tinha nem muro,  direito. Eu entrei no pátio da Operação Bandeirante e começaram a gritar  “mata!”, “tira a roupa”, “terrorista”, “filha da puta”, “deve ter  matado gente”. E lembro também perfeitamente que me botaram numa cela.  Muito estranho. Uma porção de mulheres. Tinha uma menina grávida que  perguntou meu nome. Eu dei meu nome verdadeiro. Ela disse: “Xi, você  está ferrada”. Foi o meu primeiro contato com o esperar. A pior coisa  que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a  barra era pesada. E foi. Também estou lembrando muito bem do chão do  banheiro, do azulejo branco. Porque vai formando crosta de sangue,  sujeira, você fica com um cheiro…
Por onde a tortura começou?
Dilma – Palmatória. Levei muita palmatória.
Quem batia?
Dilma – O capitão Maurício sempre aparecia. Ele não era interrogador,  era da equipe de busca. Dos que dirigiam, o primeiro era o Homero, o  segundo era o Albernaz. O terceiro eu não me lembro o nome. Era um  baixinho. Quem comandava era o major Waldir [Coelho], que a gente  chamava de major Lingüinha, porque ele falava assim [com língua presa].
Quem torturava?
Dilma – O Albernaz e o substituto dele, que se chamava Tomás. Eu não  sei se é nome de guerra. Quem mandava era o Albernaz, quem interrogava  era o Albernaz. O Albernaz batia e dava soco. Ele dava muito soco nas  pessoas. Ele começava a te interrogar. Se não gostasse das respostas,  ele te dava soco. Depois da palmatória, eu fui pro pau-de-arara.
Dá pra relembrar?
Dilma – Mandaram eu tirar a roupa. Eu não tirei, porque a primeira  reação é não tirar, pô. Eles me arrancaram a parte de cima e me botaram  com o resto no pau-de-arara. Aí começou a prender a circulação. Um outro  xingou não sei quem, aí me tiraram a roupa toda. Daí depois me botaram  outra vez.
Com choques nas partes genitais, como acontecia?
Dilma – Não. Isso não fizeram. Mas fizeram choque, muito choque, mas  muito choque. Eu lembro, nos primeiros dias, que eu tinha uma exaustão  física, que eu queria desmaiar, não agüentava mais tanto choque. Eu  comecei a ter hemorragia.
Onde eram esses choques?
Dilma – Em tudo quanto é lugar. Nos pés, nas mãos, na parte interna  das coxas, nas orelhas. Na cabeça, é um horror. No bico do seio. Botavam  uma coisa assim, no bico do seio, era uma coisa que prendia, segurava.  Aí cansavam de fazer isso, porque tinha que ter um envoltório, pra  enrolar, e largava. Aí você se urina, você se caga todo, você…
Quanto tempo durava uma sessão dessas?
Dilma – Nos primeiros dias, muito tempo. A gente perde a noção. Você  não sabe quanto tempo, nem que tempo que é. Sabe por quê? Porque pára, e  quando pára não melhora, porque ele fala o seguinte: “Agora você pensa  um pouco”. Parava, me retiravam e me jogavam nesse lugar do ladrilho,  que era um banheiro, no primeiro andar do DOI-Codi. Com sangue, com  tudo. Te largam. Depois, você treme muito, você tem muito frio. Você  está nu, né? É muito frio. Aí voltava. Nesse dia foi muito tempo. Teve  uma hora que eu estava em posição fetal.
Dá pra pensar em resistir, em não falar?
Dilma – A forma de resistir era dizer comigo mesmo: “Daqui a pouco eu  vou contar tudo o que eu sei”. Falava pra mim mesmo. Aí passava um  pouquinho. E mais um pouco. E aí você vai indo. Você não pode imaginar  que vai durar uma hora, duas. Só pode pensar no daqui a pouco. Não pode  pensar na dor.
A sra. agüentou?
Dilma – Eu agüentei. Não disse nem onde eu morava. Não disse quem era  o Max [codinome de Carlos Franklin Paixão de Araújo, então seu marido].  Não entreguei o Breno [Carlos Alberto Bueno de Freitas], porque tinha  muita dó. Vou dizer uma coisa que uma tupamara, presa com a gente, disse  pra mim. A tupamara ficou até com lesão cerebral. Ela disse: “Sabe por  que eu não disse, naquele dia, quem era quem? Porque eu era mulher do  fulano de tal e queria provar que o uruguaio é tão bom quanto o  brasileiro”.
Qual é o significado da frase?
Dilma – Que as razões que levam a gente a não falar são as mais variadas possíveis.
Quais foram as suas?
Dilma – Tinha um menino da ALN que chamava “Mister X”. Eu o vi  completamente destruído. Não sei o que foi feito dele. Nunca vou  esquecer o quadro em que ele estava. Primeiro, eu não queria que meus  companheiros estivessem numa situação daquelas. Segundo, eu tinha medo  que algum deles morresse. Terceiro, porque teve um dia que eu tive uma  hemorragia muito grande, foi o dia em que eu estive pior. Hemorragia,  mesmo, que nem menstruação. Eles tiveram que me levar para o Hospital  Central do Exército. Encontrei uma menina da ALN. Ela disse: “Pula um  pouco no quarto para a hemorragia não parar e você não ter que voltar”.
Palmatória, pau-de-arara, choque. O que mais?
Dilma – Não comer. O frio. A noite. Eles te botam na sala e falam:  “Daqui a duas horas eu volto pra te interrogar”. Ficar esperando a  tortura. Tem um nível de dor em que você apaga, em que você não agüenta  mais. A dor tem que ser infligida com o controle deles. Ele tem que  demonstrar que tem o poder de controlar tua dor.
E o torturado?
Dilma – O jogo é jamais revelar pra ele o que você acha. Ele não pode  saber o que você pensa e ele nunca pode achar que você só fala depois  de apanhar. Jamais. É melhor você não deixar ele perceber que te tira  informação por tortura. Tem que ter uma história. O ruim é quando a sua  história rui, por qualquer motivo. Ele acha que você mentiu. Se ele  achar que você mentiu, você está roubada. Ele descobriu qual é o jogo.  Quando você volta, e é por isso que voltar é ruim, ele diz: “Você  mentiu, pô, o negócio é que você mente”.
A sua história caiu?
Dilma – Uma vez caiu tudo, mas aí era tarde demais. Caiu tudinho da  Silva. Porque eu dizia que o meu marido tinha seqüestrado o avião e que,  se eu não tinha saído com ele, é que eu era uma pessoa que não sabia de  nada, que, se soubesse, teria ido junto. Aí eles descobrem que eu era  da direção da VAR, e que portanto era impossível não saber do seqüestro.  Tava zebrado. Aí tem que falar: “Não, eu era da direção, mas estava  separada dele”. Se a sua história cai, você está roubado.
O que é que ajuda, nesses momentos?
Dilma – Se eu tivesse ficado sozinha na cadeia, teria muito mais  problemas. Devo grande parte de ter superado, absorvido e em alguns  momentos chegado até a ironizar a tortura, para agüentar, às minhas  companheiras. Eu lembro do povo do [presídio] Tiradentes, que esteve  comigo.
De algum momento em particular?
Dilma – Quando alguma de nós era chamada para o repique, que era  voltar à Oban, havia um processo de contágio, de medo, e de uma  identificação muito forte entre nós. Como forma de ter controle da  situação, a gente dessolenizava. Então, tinha uma variante de grito de  guerra. Não mostra que a gente foi heroína, coisíssima nenhuma, e não é  nesse sentido. Mas foi a tentativa mais humana de dominar o indizível,  que era dizer: “Fulana, não liga não, se você for torturada a gente  denuncia”. E ria disso, pela ironia absoluta que é. O que é que adianta  denunciar? Para torturado, o que é que adianta? Mas a gente gritava isso  na hora que a pessoa estava saindo da cela, como uma forma de manter o  nível de controle sob seu destino, que você não tinha. Você não sabia  para onde você ia ou para onde a sua companheira ia.
Que balanço a sra. faz da experiência desse período?
Dilma – Não daria certo. A gente fez uma análise errada. Achamos que a  ditadura estava em crise, e estava iniciando o “milagre” [econômico]. A  gente não percebeu em que condições a atuava. Se a gente tivesse feito  uma análise correta da realidade, se tivesse visto o que estava  acontecendo… Mas a gente não percebeu, apesar da retórica, qual era o  nível de endurecimento político e de repressão que eles iam desenvolver.
O que dizia a retórica?
Dilma – A gente achava que o negócio era uma guerra revolucionária  prolongada, ou era um processo de guerrilha urbana, no momento em que o  sistema estava em expansão ou ia começar uma baita expansão e o  endurecimento pesado. Não se esqueça que no meio de 69 tem a Junta  Militar, e daí para a frente você tem talvez o período mais pesado da  ditadura, que é o período Médici. É o prende, prende, mata, mata. Numa  situação dessas, nós estávamos muito isolados, talvez umas 240 pessoas. O  que é que eles fizeram? Eles nos cercaram, desmantelaram, e uma parte  mataram. Foi isso que eles fizeram conosco. Eles isolaram a gente e  mataram.
E por que se avaliou tão mal?
Dilma – De uma certa forma, a gente tinha um modelo na cabeça. De  todo forma, eu acho que a minha geração tem um grande mérito, que é o  negócio da Var-Palmares: “Ousar Lutar, Ousar Vencer”. Esse lado de uma  certa ousadia. A gente tinha uma imensa generosidade e acreditávamos que  era possível fazer um Brasil mais igual. Eu tenho orgulho da minha  geração, de a gente ter lutado e de ter participado de todo um sonho de  construir um Brasil melhor. Acho que aprendemos muito. Fizemos muita  bobagem, mas não é isso que nos caracteriza. O que nós caracteriza é ter  ousado querer um país melhor.