domingo, 6 de junho de 2010

TEXTO INTRODUTÓRIO FILOSOFIA. (atividade para o 1º ano)

O QUE É FILOSOFIA?

O que pretendo sob o título de Filosofia, como fim e campo das minhas elaborações, sei-o, naturalmente. E contudo não o sei... Qual o pensador para quem, na sua vida de filósofo, a filosofia deixou de ser um enigma?... Só os pensadores secundários que, na verdade, não se podem chamar filósofos, estão contentes com as suas definições. (GHusserl)
A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo. (Merleau-Ponty)

                                             A história de Morte de Sócrates, de Louis David.

Sócrates foi condenado à morte acusado de corromper a mocidade e de desconhecer os deuses da Cidade. Enquanto aguardava a execução da sentença, discutia com seus discípulos a respeito da imortalidade da alma, sua condenação, defesa e morte é contada no belo diálogo de Platão, Apologia de Sócrates. Na prisão, o mestre discutia com os discípulos questões sobre a imortalidade da alma, relatadas no Fédon, também de Platão.

1, Introdução

Lembremos a figura de Sócrates. Viveu em Atenas no século V a.C. Dizem que era um homem feio, mas, quando falava, era dono de estranho fascínio. Procurado pelos jovens, passava horas discutindo na praça pública. Interpelava os transeuntes, dizendo-se ignorante, e fazia perguntas aos que julgavam entender determinado assunto. colocava o interlocutor em tal situação que não havia saída senão reconhecer a própria ignorância. Com isso Sócrates conseguiu rancorosos inimigos. Mas também alguns discípulos.

O interessante e que na segunda parte do seu método", que se seguia à destruição da ilusão do conhecimento, nem sempre se chegava de fato a uma conclusão efetiva. Sabemos disso não pelo próprio Sócrates, que nunca escreveu, mas por seus discípulos, sobretudo Platão e Xenofonte (ver o texto complementar II deste capítulo: "Ciência e missão de Sócrates").

Afinal, acusado de corromper a mocidade e desconhecer os deuses da Cidade, Sócrates foi condenado à morte.
A partir do que foi dito, podemos fazer algumas observações:
- Sócrates não está em seu "gabinete" contemplando "o próprio umbigo", e sim na praça pública.
- A relação estabelecida com as pessoas não é puramente intelectual nem alheia às emoções.
- Seu conhecimento não é livresco, mas vivo e em processo de se fazer; o conteúdo é a experiência cotidiana.
- Guia-se pelo princípio de que nada sabe e, desta perplexidade primeira, inicia a interrogação e o questionamento do que é familiar.
- Ao criticar o saber dogmático, não quer com isso dizer que ele próprio é detentor de um saber. Desperta as consciências adormecidas, mas não se considera um "farol" que ilumina; o caminho novo deve ser construído pela discussão, que é intersubjetiva, e pela busca criativa das soluções.
- Portanto, Sócrates é "subversivo" porque "desnorteia", perturba a "ordem" do conhecer e do fazer e, portanto, deve morrer.
Se fizermos um paralelo entre Sócrates e a própria filosofia, chegaremos à conclusão de que o lugar da filosofia é na praça pública, daí a sua vocação política.
Por ser alteradora da ordem, perturba, incomoda e é sempre "expulsa da cidade", mesmo quando as pessoas se riem do filósofo ou o consideram "inútil". Por via das dúvidas, o amordaçam, cortam o "mal" pela raiz e até retiram a filosofia dos cursos secundários... Mas há outras formas de "matar" a filosofia: quando a tornamos pensamento dogmático e discurso do poder, ou, ainda, quando cinicamente reabilitamos Sócrates morto, já que então se tornou inofensivo.

2. A atitude filosófica
Entre os antigos gregos predominava inicialmente a consciência mítica, cuja maior expressão se encontra nos poemas de Homero e Hesíodo, conforme já vimos no capítulo anterior.
Quando se dá a passagem da consciência mítica para a racional, aparecem os primeiros sábios, sophos, como se diz em grego. Um deles, chamado Pitágoras (séc.VI a.C.), que também era matemático, usou pela primeira vez a palavra filosofia (philossophia), que significa "amor à sabedoria". É bom observar que a própria etimologia mostra que a filosofia não é puro logos, pura razão: ela é a procura amorosa da verdade.
O trabalho filosófico é essencialmente teórico. Mas isso não significa que a filosofia esteja à margem do mundo, nem que ela constitua um corpo de doutrina ou um saber acabado, com determinado conteúdo, ou que seja um conjunto de conhecimentos estabelecidos de uma vez por todas.
Para Platão, a primeira virtude do filósofo é admirar-se. A admiração é a condição de onde deriva a capacidade de problematizar, o que marca a filosofia não como posse da verdade, mas como sua busca. Para Kant filósofo alemão do século XVIII, "não há filosofia que se possa aprender; só se pode aprender a filosofar". Isto significa que a filosofia é sobretudo uma atitude, um pensar permanente. É um conhecimento instituinte, no sentido de que questiona o saber instituido. Portanto, a teoria do filósofo não constituium saber abstrato, O próprio tecido do seu pensar é a trama dos acontecimentos, é o cotidiano. Por isso a filosofia se encontra no seio mesmo da história. No entanto, está mergulhada no mundo e fora dele: eis o paradoxo enfrentado pelo filósofo. Isso significa que o filósofo inicia a caminhada a partir dos problemas da existência, mas precisa se afastar deles para melhor compreendê-los, retornando depois a fim de dar subsídios para as mudanças.

3. A filosofia e a ciência

No seu começo, a ciência estava ligada à filosofia, sendo o filósofo o sábio que refletia sobre todos os setores da indagação humana. Nesse sentido, os filósofos Tales e Pitágoras eram também geômetras, e Aristóteles escreveu sobre física e astronomia.
Na ordem do saber estipulada por Platão, o homem começa a conhecer pela forma imperfeita da opinião (doxa), depois passa ao grau mais avançado da ciência (episteme), para só então ser capaz de atingir o nível mais alto do saber filosófico.
A partir do século XVII, a revolução metodológica iniciada por Galileu promove a autonomia da ciência e o seu desligamento da filosofia. Pouco a pouco, desse período até o século XX, aparecem as chamadas ciências particulares - física, astronomia, química, biologia, psicologia, sociologia etc. -, delimitando um campo especifico de pesquisa.
Na verdade, o que estava ocorrendo era o nascimento da ciência, como a entendemos modernamente. Com a fragmentação do saber, cada ciência se ocupa de um objeto especifico: à física cabe investigar o movimento dos corpos; à biologia, a natureza dos seres vivos; à química, as transformações substanciais, e assim por diante. Além da delimitação do objeto da ciência, se acrescenta o aperfeiçoamento do método científico, fundado sobretudo na experimentação e matematização.
O confronto dos resultados e a sua verificabilídade permitem uniformidade de conclusões e, portanto, certa objetividade. As afirmações da ciência são chamadas juízos de realidade, já que de uma forma ou de outra pretendem mostrar como os fenômenos ocorrem, quais as suas relações e, conseqüentemente, como prevê-los.
A primeira questão que nos assalta é imaginar o que resta à filosofia, se, ao longo do tempo, foi "esvaziada" do seu conteúdo pelo aparecimento das ciências particulares, tornadas independentes. Ainda mais que, no século XX, até as questões referentes ao homem passam a reivindicar o estatuto de cientificidade, representado pela procura do método das ciências humanas.
Ora, a filosofia continua tratando da mesma realidade apropriada pelas ciências. Apenas que as ciências se especializam e observam "recortes" do real, enquanto a filosofia jamais renuncia a considerar o seu objeto do ponto de vista da totalidade. A visão da filosofia é de conjunto, ou seja, o problema tratado nunca é examinado de modo parcial, mas sempre sob a perspectiva de conjunto, relacionando cada aspecto com os outros do contexto em que está inserido.
Se a ciência tende cada vez mais para a especialização, a filosofia, no sentido inverso, quer superar a fragmentação do real, para que o homem seja resgatado na sua integridade e não sucumba à alienação do saber parcelado. Por isso a filosofia tem uma função de interdisciplinaridade, estabelecendo o elo entre as diversas formas do saber e do agir.
O trabalho da filosofia sob esse aspecto é importante e, sem negar o papel do especialista nem o valor da técnica que deriva desse saber, é preciso reconhecer que o saber especializado, sem a devida visão de conjunto, leva à exaltação do "discurso competente e às conseqüentes formas de dominação.
A filosofia ainda se distingue da ciência pelo modo como aborda seu objeto: em todos os setores do conhecimento e da ação, a filosofia está presente como reflexão crítica a respeito dos fundamentos desse conhecimento e desse agir. Então, por exemplo, se a física ou a química se denominam ciências e usam determinado método, não é da alçada do próprio físico ou do químico saber o que é ciência, o que distingue esse conhecimento de outros, o que é método, qual a sua validade, e assim por diante. Eles até podem dedicar-se a esses assuntos, mas, quando o fazem, passam a se colocar questões filosóficas. O mesmo acontece com o psicólogo ao usar, por exemplo, o conceito de homem livre.
Indagar sobre o que é a liberdade é fazer filosofia.
Mudando o enfoque: e se a questão for o comércio, ou a fábrica? A partir da análise das relações sociais resultantes da divisão do trabalho, podemos questionar sobre o conceito subjacente de homem que se encontra nas relações estabelecidas socialmente.
Portanto, a filosofia não faz juízos de realidade, como a ciência, mas juízos de valor. O filósofo parte da experiência vivida do homem trabalhando na linha de montagem, repetindo sempre o mesmo gesto, e vai além dessa constatação. Não vê apenas como é, mas como deveria ser. Julga o valor da ação, sai em busca do significado dela. Filosofar é dar sentido à experiência.

4. O processo do filosofar

A filosofia de vida
Como seria o caminhar do filósofo? Na medida em que somos seres racionais e sensíveis, estamos sempre dando sentido às coisas. Ao "filosofar" espontâneo do homem comum, costumamos chamar filosofia de vida.
No Capítulo 5 (Ideologia), quando nos referimos à passagem do senso comum para o bom senso, identificamos esse último à filosofia de vida. Enquanto o senso comum é fragmentário, incoerente, preso a preconceitos e dogmático, o bom senso supõe a capacidade de organização que dá certa autonomia ao homem que analisa sua experiência de vida cotidiana.
Como veremos adiante, enquanto o homem comum faz sua filosofia de vida, o filósofo propriamente dito é um especialista. Mas o especialista filósofo é diferente dos outros especialistas (como o físico ou o matemático). Por exemplo, quando observamos o estudioso de trigonometria, podemos bem pensar que grande parte dos homens não precisa se ocupar com esse assunto. No entanto, o mesmo não acontece com o objeto de estudo do filósofo, cujo interesse se estende a qualquer homem.
Segundo Gramsci, "não se pode pensar em nenhum homem que não seja também filósofo, que não pense, precisamente porque pensar é próprio do homem como tal". Isso significa que as questões filosóficas fazem parte do cotidiano de todos nós. Se o filósofo da educação investiga os fundamentos da pedagogia, o homem comum também se preocupa em escolher critérios - não importa que sejam pouco rigorosos - a fim de decidir sobre as medidas a serem tomadas na educação de seus filhos.
Estamos diante de diferentes filosofias de vida quando preferimos morar em casa e não em apartamento, quando deixamos o emprego bem pago por outro não tão bem remunerado, porém mais atraente, ou quando escolhemos o colégio onde estudar. Há valores que entram em jogo aí. Se escolho um "colégio fraco para passar de ano e ter tempo para passear", ou se, ao contrário, prefiro um "colégio forte para me preparar para o vestibular", ou, ainda dentro dessa última opção, "um bom colégio para ter um contato melhor com o mundo da cultura e abrir as possibilidades de autoconhecimento", é preciso reconhecer que existem critérios bem diferentes fundamentando tais decisões.
É por isso que consideramos tão importante a introdução do estudo de filosofia nas escolas de 2º grau. Não propriamente para preparar futuros prováveis filósofos especialistas, mas a fim de dar alguns subsídios para o aprimoramento da reflexão filosófica inerente a qualquer ser humano. Nesse sentido, o ensino da filosofia deveria se estender a todos os cursos e não só às classes de ciências humanas.

A filosofia propriamente dita

A filosofia propriamente dita tem condições de surgir no momento em que o pensar é posto em causa, tornando-se objeto de reflexão. Mas não qualquer reflexão. Como vimos, o homem comum, no cotidiano da vida, é levado a momentos de parada, a fim de retomar o significado de seus atos e pensamentos, e nessa hora é solicitado a refletir. Entretanto, ainda não é filosofia rigorosa o que ele faz.
Examinemos a palavra reflexão: quando vemos nossa imagem refletida no espelho, há um "desdobramento", pois estamos aqui e estamos lá; no reflexo da luz, ela vai até o espelho e retorna; reflectere, em latim, significa "fazer retroceder", "voltar atrás". Portanto, refletir é retomar o próprio pensamento, pensar o já pensado, voltar para si mesmo e colocar em questão o que já se conhece.
É ainda Gramsci quem diz: "o filósofo profissional ou técnico não só "pensa" com maior rigor lógico, com maior coerência, com maior espírito de sistema do que os outros homens, mas conhece toda a história do pensamento, sabe explicar o desenvolvimento que o pensamento teve até ele e é capaz de retomar os problemas a partir do ponto em que se encontram, depois de terem sofrido as mais variadas tentativas de solução."

Segundo o professor Dermeval Saviani, a reflexão filosófica é radical, rigorosa e de conjunto. Interpretaremos esses tópicos:
Radical: a palavra latina radix, radicis significa "raiz", e no sentido figurado, "fundamento, base". Portanto, a filosofia é radical não no sentido corriqueiro de ser inflexível (nesse caso seria a antifilosofia!), mas enquanto busca explicitar os conceitos fundamentais usados em todos os campos do pensar e do agir. Por exemplo, a filosofia das ciências examina os pressupostos do saber científico, do mesmo modo que, diante da decisão de um vereador em aprovar determinado projeto, a filosofia política investiga as "raízes" (os princípios políticos) que orientam sua ação.
Rigorosa: enquanto a "filosofia de vida" não leva as conclusões até as últimas conseqüências e nem sempre é capaz de examinar os fundamentos delas, o filósofo deve dispor de um método claramente explicitado a fim de proceder com rigor, garantindo a coerência e o exercício da crítica. Mesmo porque o filósofo não faz afirmações apenas, precisa justificá-las com argumentos. Para tanto usa de linguagem rigorosa, que evita as ambiguidades das expressões cotidianas e lhe permite discutir com outros filósofos a partir de conceitos claramente definidos. É por isso que o filósofo sempre "inventa conceitos", ou cria expressões novas (quanto fizeram isto os gregos)) ou altera e especifica o sentido de palavras usuais.
De conjunto: enquanto as ciências são particulares, porque abordam "recortes" da realidade e se distinguem de outras formas de conhecimento, e a ação humana se expressa nas mais variadas formas (técnica, magia, arte, política etc.), a filosofia é globalizante, porque examina os problemas sob a perspectiva de conjunto, relacionando os diversos aspectos entre si. Nesse sentido, além de considerarmos que o objeto da filosofia é tudo (porque nada escapa a seu interesse), completamos que a filosofia visa ao todo, à totalidade. Daí a função de interdisciplinaridade da filosofia, estabelecendo o elo entre as diversas formas de saber e agir humanos.
A maneira pela qual se faz rigorosamente a reflexão filosófica varia conforme a orientação do filósofo e as tendências históricas decorrentes da situação vivida pelos homens em sua ação sobre o mundo.

Qual é a "utilidade" da filosofia?
Para responder à questão, precisamos saber primeiro o que entendemos por utilidade. Eis o primeiro impasse. Vivemos num mundo em que a visão das pessoas está marcada pela busca dos resultados imediatos do conhecimento. Então, é considerada importante a pesquisa do biólogo na busca a cura do câncer; ou o estudo de matemática no 2º grau porque "entra no vestibular"; e constantemente o estudante se pergunta: "Para que vou estudar isto, se não usarei na minha profissão?" Seguindo essa linha de pensamento, a filosofia seria realmente "inútil": não serve para nenhuma alteração imediata de ordem pragmática. Neste ponto, ela é semelhante à arte. Se perguntarmos qual é a finalidade de uma obra de arte, veremos que ela tem um fim em si mesma e, nesse sentido, é "inútil".
Entretanto, não ter utilidade imediata não significa ser desnecessário. A filosofia é necessária.
Onde está a necessidade da filosofia?
Está no fato de que, por meio da reflexão (aquele desdobrar-se, lembra-se?), a filosofia permite ao homem ter mais de uma dimensão, além da que é dada pelo agir imediato no qual o "homem prático" se encontra mergulhado. É a filosofia que dá o distanciamento para a avaliação dos fundamentos dos atos humanos e dos fins a que eles se destinam; reúne o pensamento fragmentado da ciência e o reconstrói na sua unidade; retoma a ação pulverizada no tempo e procura compreendê-la.
Portanto, a filosofia é a possibilidade da transcendência humana, ou seja, a capacidade que só o homem tem de superar a situação dada e não-escolhida. Pela transcendência, o homem surge como ser de projeto, capaz de liberdade e de construir o seu destino.
O distanciamento é justamente o que provoca a aproximação maior do homem com a vida. Whitehead, lógico e matemático britânico contemporâneo, disse que "a função da razão é promover a arte da vida". A filosofia recupera o processo perdido no imobilismo das coisas feitas (mortas porque já ultrapassadas). A filosofia impede a estagnação.
Por isso, o filosofar sempre se confronta com o poder, e sua investigação não fica alheia à ética e à política. É o que afirma o historiador da filosofia François Châtelet: "Desde que há Estado - da cidade grega às burocracias contemporâneas -, a idéia de verdade sempre se voltou, finalmente, para o lado dos poderes (ou foi recuperada por eles, como testemunha, por exemplo, a evolução do pensamento francês do século XVIII ao século XIX). Por conseguinte, a contribuição especifica da filosofia que se coloca ao serviço da liberdade, de todas as liberdades, é a de minar, pelas análises que ela opera e pelas ações que desencadeia, as instituições repressivas e simplificadoras: quer se trate da ciência, do ensino, da tradução, da pesquisa, da medicina, da família, da polícia, do fato carcerário, dos sistemas burocráticos, o que importa é fazer aparecer a máscara, deslocá-la, arrancá-la... "
A filosofia é, portanto, a crítica da ideologia, enquanto forma ilusória de conhecimento que visa a manutenção de privilégios. Atentando para a etimologia do vocábulo grego correspondente à verdade (a-létheia, alethetiein, 'desnudar"), vemos que a verdade é pôr a nu aquilo que estava escondido, e aí reside a vocação do filósofo: o desvelamento do que está encoberto pelo costume, pelo convencional, pelo poder.
Finalmente, a filosofia exige coragem. Filosofar não é um exercício puramente intelectual. Descobrir a verdade é ter a coragem de enfrentar as formas estagnadas do poder que tentam manter o status quo. é aceitar o desafio da mudança. Saber para transformar.
Lembremos que Sócrates foi aquele que enfrentou com coragem o desafio máximo da morte.


6. Filosofia: nem dogmatismo, nem ceticismo
Vimos, no Capítulo 3 (O que é conhecimento), que o ceticismo é uma posição filosófica que conclui pela impossibilidade do conhecimento, quer na forma moderada de suspensão provisória do juízo, quer na radical recusa em formular qualquer conclusão.
No outro extremo, existe o dogmatismo, segundo o qual o filósofo se considera de posse de certezas e de verdades absolutas e indubitáveis. Enquanto o dogmático se apega à certeza de uma doutrina, o cético conclui pela impossibilidade de toda certeza e, nesse sentido, considera inútil a busca que não leva a lugar nenhum.

Comparando as duas posições antagônicas, podemos perceber que elas têm em comum a visão imobilista do mundo: o dogmático atinge uma certeza e nela permanece; o cético anseia pela certeza e decide que ela é inalcançável.
Mas a filosofia é movimento, pois o mundo é movimento. A certeza e sua negação são apenas dois momentos (a tese e a antítese) que serão superados pela síntese, a qual, por sua vez, será nova tese, e assim por diante. A filosofia é a procura da verdade, não a sua posse, como disse Iaspers, filósofo alemão contemporâneo, concluindo que "fazer filosofia é estar a caminho; as perguntas em filosofia são mais essenciais que as respostas e cada resposta transforma-se numa nova pergunta".

Exercícios


1. Qual é a relação inicial da ciência com a filosofia e quando se dá a separação delas? Quais são as principais diferenças entre ciência e filosofia?

2. O que é filosofia de vida? Como ela se distingue da filosofia do especialista?

3. O que caracteriza a reflexão filosófica propriamente dita?

4. O que significa dizer que a filosofia é inútil" mas necessária?

5. Qual é a relação da filosofia com o poder?

6. "Pois é impossível negar que a filosofia coxeia. Habita a história e a vida, mas quereria instalar-se no seu centro, naquele ponto em que são advento, sentido nascente. Sente-se mal no já feito. Sendo expressão, só se realiza renunciando a coincidir com aquilo que exprime e afastando-se dele para lhe captar o sentido. É a utopia de uma posse à distância." (Merleau-Ponty)

Explique o que Merleau-Ponty quer dizer com: "só se realiza renunciando a coincidir com aquilo que exprime".



BIBLIOGRAFIA

ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires (org.). Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo: Moderna, 1990.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

DICA

Simplesmente Eu, Clarice Lispector



1 Mai a 20 Jun

Local: Teatro (125 lugares)

Horário: Sextas e sábados, às 19h30. Domingos, às 18h

Neste monólogo, Beth Goulart encarna Clarice Lispector, por meio de texto extraído de depoimentos, entrevistas, correspondências e trechos de seus livros "Perto do Coração Selvagem" e "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres", além dos contos "Amor" e "Perdoando Deus". O espetáculo conta a trajetória da escritora em busca do entendimento do amor, através de suas dúvidas e contradições. Vida, morte, Deus, maternidade, literatura e amor estão entre os temas abordados. Direção, adaptação e interpretação de Beth Goulart, supervisão de Amir Haddad.
SERVIÇO

Data: 10 de abril a 20 de junho
Horário: Sextas e sábados, às 19h30. Domingos, às 18h
Local: Teatro (125 lugares)
R. Álvares Penteado, 112 - Centro
Ingressos: R$ 15 e R$ 7 (meia-entrada)

(Clientes BB, funcionários do Banco Nossa Caixa, estudantes, professores da rede pública e maiores de 60 anos pagam meia-entrada. É indispensável a apresentação de documento que comprove o direito à meia-entrada)
Classificação indicativa: 12 anos

sexta-feira, 23 de abril de 2010

XIV FESCETE - FESTIVAL DE CENAS TEATRAIS - 6º CONCURSO ESTUDANTIL DE POESIA.

ESTÃO ABERTAS AS INSCRIÇÕES PARA O 6º CONCURSO ESTUDANTIL DE POESIA

Atenção Escolas e Universidades da região! Estão abertas as inscrições para o  6º CONCURSO ESTUDANTIL DE POESIA, este ano com três grandes novidades.

A primeira é que todas as inscrições serão GRATUITAS.

A segunda, todas os universitários de qualquer área poderão participar dentro da Categoria Universitária.
E a terceira boa notícia é a parceria com a UNIMONTE, Centro universitário Monte Serrat  que abraçou a causa da arte e da educação e junto com o TESCOM, promovem o 6º CONCURSO ESTUDANTIL DE POESIA.
Mas fiquem ligados, pois o prazo para as inscrições termina dia 21 de maio de 2010.
Não perca tempo! Crie sua poesia! Regulamento disponível no site http://www.estudiotescom.com.br/
 
 
O tema para o Ensino Médio e universitários é : "as dores do mundo"...
Tema do livro do filósofo Artur Schopenhauer de apenas 55 pg, disponível no link http://www.4shared.com/document/0uDwHJQ1/SCHOPENHAUER_Arthur_As_dores_d.html?s=1  
 
Salvador Dali.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O Mundo

Lenine, Zeca Baleiro, Paulinho Moska, Chico Cesar

O mundo é pequeno prá caramba
Tem alemão, italiano, italiana
O mundo, filé à milaneza

Tem coreano, japonês, japoneza...
O mundo é uma salada russa
Tem nêgo da Pérsia
Tem nêgo da Prússia

O mundo é uma esfiha de carne
Tem nêgo do Zâmbia
Tem nêgo do Zaire...

O mundo é azul lá de cima
O mundo é vermelho na China
O mundo tá muito gripado
Açucar é doce
O sal é salgado...

O mundo caquinho de vidro
Tá cego do olho
Tá surdo do ouvido
O mundo tá muito doente
O homem que mata
O homem que mente...

Por que você me trata mal?
Se eu te trato bem!
Por que você me faz o mal?
Se eu só te faço bem!...(2x)

O mundo é pequeno prá caramba
Tem alemão, italiano, italiana
O mundo, filé à milaneza
Tem coreano, japonês, japoneza...

O mundo é uma salada russa
Tem nêgo da Pérsia

Tem nêgo da Prússia
O mundo é uma esfiha de carne
Tem nêgo do Zâmbia
Tem nêgo do Zaire...

O mundo é azul lá de cima
O mundo é vermelho na China
O mundo tá muito gripado
Açucar é doce
O sal é salgado...

O mundo caquinho de vidro
Tá cego do olho
Tá surdo do ouvido
O mundo tá muito doente
O homem que mata
O homem que mente...

Por que você me trata mal?
Se eu te trato bem!
Por que você me faz o mal?
Se eu só te faço bem!...(2x)

Todos somos filhos de Deus
Só não falamos
As mesmas línguas...(4x)

sexta-feira, 2 de abril de 2010

História da Filosofia

FILOSOFIA ANTIGA

Panorama dos pré-socráticos ao helenismo

Heidi Strecker*
Especial para Página 3 Pedagogia & Comunicação
Platão (esq.) e Aristóteles, em detalhe do quadro de Rafaello
A filosofia é um saber específico e tem uma história que já dura mais de 2.500 anos. A filosofia nasceu na Grécia antiga - costumamos dizer - com os primeiros filósofos, chamados pré-socráticos. Mas a filosofia não é compreendida hoje apenas como um saber específico, mas também como uma atitude em relação ao conhecimento, o que faz com que seus temas, seus conceitos e suas descobertas sejam constantemente retomados.
A história da filosofia coloca em perspectiva o conhecimento filosófico e apresenta textos e autores que fundamentam nosso conhecimento até hoje.
A história da filosofia na Antigüidade pode ser dividida em três grandes períodos: o período pré-socrático, a Grécia clássica e a época helenística.

Pré-socráticos

Os filósofos que viveram antes da época de Sócrates, como Parmênides e Heráclito, investigaram a origem das coisas e as transformações da natureza. De seus textos só restaram fragmentos. O conhecimento especulativo no período pré-socrático não se distinguia dos outros conhecimentos, como a astronomia, a matemática ou a física.
Tales de Mileto foi o primeiro pensador que podemos chamar de filósofo. Como outros pré-socráticos, Tales dedicou-se a caracterizar o princípio ou a matéria de que é feito o mundo. Sustentou que este princípio era a água.

A Grécia clássica

No período clássico, a filosofia vinculou-se a um momento histórico privilegiado - o da Grécia clássica. Nesse período, que compreende os séculos 5 a.C. e 4 a.C., a civilização grega conheceu seu apogeu, com o esplendor da cidade de Atenas. Essa cidade-estado dominou a Grécia com seu poderio militar e econômico.
Adotando a democracia como sistema político, Atenas assistiu a um florescimento admirável das ciências e das artes. Foi esse período histórico que deu origem ao pensamento dos três maiores filósofos da Antigüidade: Sócrates, Platão e Aristóteles.
Sócrates não deixou uma obra escrita, mas conhecemos seu pensamento através das obras de seu discípulo Platão. Este não escreveu uma obra sistemática, organizada de forma lógica e abstrata, mas sim um rico conjunto de textos em forma de diálogo, em que diferentes temas são discutidos. Os diálogos de Platão estão organizados em torno da figura central de seu mestre - Sócrates.

Platão e Aristóteles

O conhecimento é resultado do convívio entre homens que discutem de forma livre e cordial. No livro "A República", por exemplo, temos um grupo de amigos que incluem o filósofo Sócrates, dois irmãos de Platão - Glauco e Adimanto - e vários outros personagens, que serão provocados pelo mestre. O diálogo vai tratar de assuntos relacionados à organização da sociedade e à natureza da política. A palavra política vem do grego polis, que significa cidade ou Estado.
Aristóteles - ao contrário de Platão - criou uma obra sistemática e ordenada. A filosofia aristotélica cobre diversos campos do conhecimento, como a lógica, a retórica, a poética, a metafísica e as diversas ciências. No livro "A Política", Aristóteles entende a ciência política como desdobramento de uma ética, cuja principal formulação encontra-se no livro "Ética a Nicômaco".

Helenismo

O período helenístico corresponde ao final do século 3 a.C. (período que se sucede à morte de Alexandre Magno, em 323 a.C.) e se estende, segundo alguns historiadores, até o século 6 d.C. As preocupações filosóficas fundamentais voltam-se para as questões morais, para a definição dos ideais de felicidade e virtude e para o saber prático.

FILOSOFIA MEDIEVAL

 Filósofos cristãos conciliaram fé e razão

Heidi Strecker*
Com a dissolução do Império romano, as invasões bárbaras e o desaparecimento das instituições, os centros de difusão cultural também se desagregaram. Os chamados "pais da igreja" foram os primeiro filósofos a defender a fé cristã nos primeiros séculos, até aproximadamente o século 8.
Os padres da igreja foram os filósofos que, nesse período, tentaram conciliar a herança clássica greco-romana, com o pensamento cristão. Essa corrente filosófica é conhecida como patrística. A filosofia patrística começa com as epístolas de São Paulo e o evangelho de São João. Essa doutrina tinha também um propósito evangelizador: converter os pagãos à nova religião cristã.
Surgiram idéias e conceitos novos, como os de criação do mundo, pecado original, trindade de Deus, juízo final e ressurreição dos mortos. As questões teológicas, relativas às relações entre fé e razão, ocuparam as reflexões dos principais pensadores da filosofia cristã.

Santo Agostinho e a interioridade

Santo Agostinho (354-430) foi o primeiro grande filósofo cristão. Uma de suas principais formulações foi a idéia de interioridade, isto é, de uma dimensão humana dotada de consciência moral e livre arbítrio.
As idéias filosóficas tornam-se verdades reveladas (reveladas por Deus, através da Bíblia e dos santos) e inquestionáveis. Tornaram-se dogmas. A partir da formulação das idéias da filosofia cristã, abre-se a perspectiva de uma distinção entre verdades reveladas e verdades humanas. Surge a distinção entre a fé e a razão.
O conhecimento recebido de Deus torna-se superior ao conhecimento racional. Em decorrência desta própria dicotomia, surge a discussão em torno da possibilidade de conciliação entre fé e razão.

Escolástica e Tomas de Aquino

A partir do século 12, a filosofia medieval é conhecida como escolástica. Surgem as universidades e os centros de ensino e o conhecimento é guardado e transmitido de forma sistemática. Platão e Aristóteles, os grandes pensadores da Antiguidade, também foram as principais influências da filosofia escolástica. Nesse período, a filosofia cristã alcançou um notável desenvolvimento. Criou-se uma teologia, preocupada em provar a existência de Deus e da alma.
O método da escolástica é o método da disputa. A disputa consiste na apresentação de uma tese, que pode ser defendida ou refutada por argumentos. Trata-se de um pensamento subordinado a um princípio de autoridade (os argumentos podem ser tirados dos antigos, como Platão e Aristóteles, dos padres da igreja ou dos homens da igreja, como os papas e os santos).
O filósofo mais importante desse período é São Tomás de Aquino, que produziu uma obra monumental, a "Suma Teológica", elaborando os princípios da teologia cristã.

FILOSOFIA MODERNA

A razão: do Renascimento ao Iluminismo

Heidi Strecker*
No período do Renascimento (séculos 15 e 16), o mundo assistiu a profundas transformações no campo da política, da economia, das artes e das ciências. O Renascimento retomou valores da cultura clássica (representada pelos autores gregos e latinos), como a autonomia de pensamento e o uso individual da razão, em oposição aos valores medievais, como o domínio da fé e a autoridade da Igreja.

No campo político, o principal autor do Renascimento foi Maquiavel, autor de "O Príncipe". Maquiavel elaborou uma teoria política fundamentada na prática e na experiência concreta. Durante o período medieval, o poder político era concebido como presente divino e os teólogos elaboraram suas teorias políticas baseados nas escrituras sagradas e no direito romano.
Uma outra obra representativa desse momento filosófico é o "Elogio da Loucura", de Erasmo de Roterdã. Ao elaborar uma obra ao mesmo tempo literária e filosófica, Erasmo usa a palavra para afirmar valores humanos e denunciar a hipocrisia, ridicularizando papas, filósofos ou príncipes. As mudanças dessa época de crise prepararam o caminho para o despontar do racionalismo clássico.

Racionalismo clássico

O século 17 foi um dos períodos mais fecundos para a história da filosofia. Marcado pelo absolutismo monárquico (concentração de todos os poderes nas mãos do rei) e pela Contra-Reforma (reafirmação da doutrina católica em oposição ao crescimento do protestantismo), essa época acolheu as grandes criações do espírito científico, como as teorias de Galileu Galilei e o experimentalismo de Francis Bacon.
Recusando a autoridade dos filósofos que o antecederam, René Descartes foi o maior expoente do chamado "racionalismo clássico" - uma época que deu ao mundo filósofos tão brilhantes como Blaise Pascal, Thomas Hobbes, Baruch Espinoza, John Locke e Isaac Newton.
Embora sempre tenha sido objeto da reflexão dos filósofos, o problema do conhecimento tornou-se mais agudo a partir do século 17. Com os filósofos modernos (em oposição aos filósofos medievais e os da Antiguidade), a teoria do conhecimento tornou-se uma disciplina filosófica independente. O pensamento passou a voltar-se para si mesmo. O pensamento (sujeito do conhecimento) passou a ser também o seu objeto. Em outras palavras: o homem começou a pensar nas suas próprias maneiras de pensar e entender o mundo.

Racionalismo e empirismo

Os filósofos formularam basicamente duas respostas diferentes para a questão do conhecimento - o racionalismo e o empirismo.
Para os racionalistas, como René Descartes, o conhecimento verdadeiro é puramente intelectual. A experiência sensível precisa ser separada do conhecimento verdadeiro. A fonte do conhecimento é a razão.
Para os empiristas, como John Locke e David Hume, o conhecimento se realiza por graus contínuos, desde a sensação até atingir as idéias. A fonte do conhecimento é a experiência sensível.

O iluminismo

No século 18, a razão é vista também como guia para a discussão do problema moral (o problema da ação humana) e o filósofo é entendido como aquele que faz uso público da razão, ao usar sua liberdade de pensar diante de um público letrado.
Immanuel Kant foi um filósofo de grande reputação, um dos maiores pensadores da filosofia do Iluminismo (movimento cultural do século 17 e 18, caracterizado pela valorização da razão como instrumento para alcançar o conhecimento).
Como autêntico representante da filosofia do século 18, era defensor incondicional do papel da razão no progresso do homem. Ao buscar fundamentar na razão os princípios gerais da ação humana, Kant elaborou as bases de toda a ética que viria a seguir. A formulação do famoso "imperativo categórico" guiou seu pensamento no campo da moral e dos costumes. Kant criou duas obras magistrais, a "Crítica da Razão Pura"(1781) e "Crítica da Razão Prática" (1788).
O Iluminismo foi também a filosofia que norteou a Revolução Francesa, e teve em filósofos como Voltaire, Jean-Jacques Rousseau e Denis Diderot seus grandes expoentes.

FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

Fenomenologia, existencialismo

Heidi Strecker*
Especial para Página 3 Pedagogia & Comunicação
O mundo em que vivemos, das telecomunicações, da internet, dos programas espaciais, da física quântica, ou da medicina de alta tecnologia parece não ter lugar para a filosofia. Onde está a filosofia? O filósofo Bertrand Russel pensou nessa questão:

A filosofia, como todos os outros estudos, visa em primeiro lugar ao conhecimento. O conhecimento a que ela aspira é o tipo de conhecimento que dá unidade e sistematiza o corpo das ciências, e que resulta de um exame crítico dos fundamentos de nossas convicções, preconceitos e crenças.
Bertrand Russell, Os problemas da filosofia

Isso mesmo. Essa é uma das definições de filosofia: ela é uma disciplina que estuda os fundamentos de nossas convicções. No entanto, enquanto as ciências estabelecem um corpo sólido de conhecimentos e verdades a partir do qual passam a se desenvolver, a filosofia não alcança os mesmos resultados. Ela não dá respostas definitivas a nenhuma questão. E agora? O próprio Bertrand Russel matou a charada:

Isto se deve em parte ao fato de que, assim que o conhecimento definitivo a respeito de qualquer assunto torna-se possível, esse assunto deixa de ser chamado de filosofia, e torna-se uma ciência independente. O estudo total dos céus, que agora pertence à astronomia, foi um dia incluído na filosofia; a grande obra de Newton chamava-se ‘princípios matemáticos de filosofia natural’. Do mesmo modo, o estudo da mente humana, que fazia parte da filosofia, agora foi separado da filosofia e tornou-se a ciência da psicologia. Assim, em grande medida, a incerteza da filosofia é mais aparente que real: as questões que são capazes de ter respostas definitivas são abrigadas nas ciências, enquanto aquelas para as quais, até o presente, não podem ser dadas respostas definitivas, continuam a formar o resíduo que é chamado de filosofia.

Estamos mergulhados num mundo que não cessa de colocar novas questões para a filosofia. Por isso mesmo, não é fácil reconhecer o que é a filosofia contemporânea. Estamos perto demais. Percebemos a filosofia do passado com mais clareza e mais coesão do que percebemos a filosofia que se faz hoje.
Mas vamos lá! Chamamos de filosofia contemporânea aquela que teve início no século 19, atravessou o século 20 e chegou até os dias de hoje.
A filosofia contemporânea fundamenta-se em alguns conceitos que foram elaborados no século 19. Um desses conceitos é o conceito de história, que foi formulado pelo filósofo G.W.F. Hegel. A filosofia de Hegel relaciona-se com as idéias de totalidade e de processo. Passamos a entender o homem como um ser histórico, assim como a sociedade.
Uma das conseqüências dessa percepção é a idéia de progresso. O filósofo Auguste Comteordem e progresso, é inspirado nas idéias de Comte). foi um dos principais teóricos a pensar essa questão. Tanto a razão quanto o saber científico caminham na direção do desenvolvimento do homem (o lema da bandeira brasileira,
As utopias políticas elaboradas no século 19, como o anarquismo, o socialismo e o comunismo, também devem muito à idéia de desenvolvimento e progresso, como caminho para uma sociedade justa e feliz.

Progresso descontínuo

A idéia de que a história fosse um movimento contínuo e progressivo em direção ao aperfeiçoamento sofreu duras restrições durante o século 20.
No século 20, porém, formou-se a noção de que o progresso é descontínuo, isto é, não se faz por etapas sucessivas. Desse modo, a história universal não é um conjunto de várias civilizações em etapas diferentes de desenvolvimento. Cada sociedade tem sua própria história. Cada cultura tem seus próprios valores.
Essa visão de mundo possibilitou o desenvolvimento de várias ciências como a etnologia, a antropologia e as ciências sociais.

Ciência e técnica

A confiança no saber científico foi outra das atitudes filosóficas que se desenvolveram no século 19. Essa atitude implica que a natureza pode ser controlada pela ciência e pela técnica. Mas não apenas isso, o desenvolvimento da ciência e da técnica passa a ser capaz de levar ao progresso vários aspectos da vida humana. Surgiram disciplinas como a psicologia, a sociologia e a pedagogia.
No século 20, a filosofia passou a colocar em cheque o alcance desses conhecimentos. Essas ciências podem não conseguir abranger a totalidade dos fenômenos que estudam. E também muitas vezes não conseguem fundamentar e validar suas próprias descobertas.

O triunfo da razão

A idéia de que a razão, ciência e o conhecimento são capazes de dar conta de todos os aspectos da vida humana também foi pensada criticamente por dois grandes filósofos: Karl Marx e Sigmund Freud.
No campo político, Marx tornou relativa a idéia de uma razão livre e autônoma ao formular a noção de ideologia - o poder social e invisível que nos faz pensar como pensamos e agir como agimos.
No campo da psique, Freud abalou o edifício das ciências psicológicas ao descobrir a noção de inconsciente - como poder que atua sem o controle da consciência.

Teoria crítica

A idéia de progresso humano como percurso racional sofreu um duro golpe com a ascensão dos regimes totalitários, como o nazismo, o fascismo e o stalinismo. O desencanto tomou o lugar da confiança que existia anteriormente na idéia de uma razão triunfante.
Para fazer face a essa realidade, um grupo de intelectuais alemães elaborou uma teoria que ficou conhecida como teoria crítica. Um dos principais filósofos desse grupo é Max Horkheimer. Ele pensou que as transformações na sociedade, na política e na cultura só podem se processar se tiverem como fim a emancipação do homem e não o domínio técnico e científico sobre a natureza e a sociedade.
Esse pensamento distingue a razão instrumental da razão crítica. O que seria a razão instrumental? Aquela que transforma as ciências e as técnicas num meio de intimidação do homem, e não de libertação. E a razão crítica? É a que estuda os limites e os riscos da aplicação da razão instrumental.

Existencialismo

O filósofo Jean-Paul Sartre também pensou as questões do homem frente à liberdade e ao seu compromisso com a história. Utilizando também as contribuições do marxismo e da psicanálise, o filósofo elaborou um pensamento sistemático que põe em relevo a noção de existência em lugar da essência.

Fenomenologia

O estudo da linguagem científica, dos fundamentos e dos métodos das ciências tornou-se um foco de atenção importante para a filosofia contemporânea. O filósofo Edmund Husserl propôs à filosofia a tarefa de estudar as possibilidades e os limites do próprio conhecimento. Husserl desenvolveu uma teoria chamada fenomenologia.

Filosofia analítica

As formas e os modos de funcionamento da linguagem foram estudados pelo filósofo Ludwig Wittgenstein. A filosofia analítica é uma disciplina que se vale da análise lógica como método e entende a linguagem como objeto da filosofia. Bertrand Russel e Quine também estudaram os problemas lógicos das ciências, a partir da linguagem científica.
Embora tenha se desdobrado em disciplinas especializadas, a filosofia ainda é - como sempre foi - uma atitude filosófica.

Assim que começamos a filosofar achamos que mesmo as coisas mais cotidianas levam a problemas para os quais só podem ser dadas respostas muito incompletas. A filosofia, embora incapaz de nos dizer com certeza quais são as respostas verdadeiras às dúvidas que ela suscita, está apta a sugerir muitas possibilidades que ampliam nossos pensamentos e os libertam da tirania do hábito. Assim, embora diminuindo nosso sentimento de certeza a respeito do que as coisas são, ela aumenta enormemente nosso conhecimento em direção ao que as coisas podem ser.

O Buraco Branco no Tempo



O texto a seguir é um resumo sobre o documentário "O buraco branco no tempo" (inspirado no livro de Peter Russel):

O vídeo explora os padrões evolucionários que estão detrás de nosso desenvolvimento em contínua aceleração e pergunta: "Por que uma espécie que é de tantas formas muito inteligente pode também se comportar de maneiras que são aparentemente tão insanas?"
A humanidade surgiu, considerando o tempo de existência de nosso planeta, há pouco tempo. A filosofia Hindu afirma que o nosso tempo neste planeta corresponde á um piscar dos olhos de Deus. Vendo por esse lado, somos realmente insignificantes.
Analogicamente se medíssemos a história do planeta nos andares do ‘falecido’ World Trade Center, nós, seres humanos da Modernidade, corresponderíamos a uma espessura menor que a camada de tinta do alto do arranha-céu.
Apesar da nossa curta existência, nunca este planeta foi tão mudado quanto está sendo nesses últimos séculos. Aonde quer que estejamos indo, estamos indo rápido.
Dentre os fatos que ajudaram na nossa estudada evolução o primeiro fator que possibilitou tudo isso foi, sem dúvidas, a reprodução sexuada – fenômeno que acelerou nossa diversidade, tudo graças ao compartilhamento do DNA.
Linearmente, em seguida, os seres humanos desenvolveram os sentidos, o cérebro e, finalmente, a linguagem simbólica. Foi através dessa última que nós chegamos ao ápice que estamos hoje – seres que mudam o mundo.
Essa evolução da inteligência humana se deu, também, graças ás diversas invenções que nos ajudaram em muito no nosso aprendizado. Cálculos que duravam décadas hoje são feito em horas. Comunicações de meses são feitas em segundos.
Foi um grande salto desde que nossos antepassados descobriram a Linguagem Escrita até chegar aos dias de hoje feitos á partir de computadores e satélites. Nosso mundo construiu uma grande teia de comunicação.
Todo esse engenhoso mundo não seria possível sem o maior instrumento de construção do homem: a mão. Foi ela quem nos deu os artifícios dessa evolução.
Paradoxalmente, tudo o que planejamos, construímos e conseguimos teve como objetivo simples elevar nossa qualidade de vida, mas, ao contrário do que esperávamos, estamos vivenciando épocas em que os efeitos colaterais de nossa evolução põem em risco nossa própria sobrevivência.
Consumimos em um ano, o que antigamente consumiríamos em 3500. A população global que durou séculos para atingir um bilhão de habitantes, em pouco tempo adquiriu seis vezes mais do que anteriormente. E todo esse consumo em massa tem um péssimo efeito: mais desperdício, mais poluição, menos qualidade de vida.
Nosso planeta miserável hoje consume, aproximadamente, um trilhão de dólares em produção bélica; em quanto que o valor necessário para diminuir nossos problemas está avaliado em um pouco mais que 700 bilhões. O nosso egoísmo impede nossa própria sobrevivência como planeta.
O nosso grau de consumismo chegou á um patamar que a ‘felicidade’ está diretamente proporcional ao consumo. E vivemos para consumir cada vez – buscando, assim, essa felicidade aparente.
A tecnologia nos tornou, também paradoxalmente, muito mais próximos e, ao mesmo tempo, mais distantes de nós mesmos. E esse egoísmo nós traz inúmeros problemas. Passamos a julgar as pessoas por o que elas têm e esquecemos de que elas também são seres humanos, como nós.
...
Conseguimos fazer em pouco tempo o que nenhum outro ser vivo fez por esse planeta. Alcançamos limites imagináveis há milênios atrás. Fomos à Lua. Conhecemos o espaço. Dominamos o fogo e ás máquinas...
Mas, ironicamente, desconhecemos por completo nosso interior. E isso nos faz pensar a maravilhosa exploração que nos aguarda em breve. Nossa exploração interior, uma revolução em nossa consciência.
Aos poucos, chegamos á um patamar de evolução em que devemos parar para pensar e avaliar que está certo e errado. Seria uma pena ver a humanidade, que conseguiu chegar até aqui, pôr tudo á perder.
Se a humanidade chegará a este último passo? Só o tempo dirá. Um buraco branco no tempo.

fonte: http://superbabaca.blogspot.com/2006/06/o-buraco-branco-no-tempo.html
Link para o vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=uUiSYP5L6Mo

quarta-feira, 17 de março de 2010

Vidas Secas




O livro de Graciliano Ramos traz grandes reflexões sobre a significação e função da linguagem para a compreensão e transformação da realidade em que vivemos. Não só como meio de comunicação, mas de significado e humanização da existência humana.No caso do livro, o oposto: a luta pela sobrevivência contra a fome, a seca, as injustiças sociais, passa pela falta de compreensão da realidade, limitada pela não-linguagem, que imobiliza os personagens, reféns de sua situação e sem entendimento suficiente para visionar uma nova realidade. A luta é pela subsistência, como a da cachorra Baleia, e não pela vida. Um entendimento diferenciado do mundo, mas ainda assim um tipo de entendimento?
é só clicar em: Click here to download this file e baixar!!!!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Fainestein (aquilo que aparece –fenômeno)... Deus?...


                                               W.Kush

O que me atento não é a postulação de um Deus, seja transcendente, imanente ou Idéia. Pois se o há, de qualquer uma das formas, deixe-o ser! Perene onde e como estiver, mas não o atribuas humanidades. Escrever livro, regrar mandamentos, distinguir se há ou não santos, demônios, se há o mal, o “inimigo”... Nada o é de fato, são meras representações escritas de homens. Diria: “Homens que conviveram com Cristo, filho de Deus”, mas são homens que percebem como tal e individualmente. Platão conviveu com Sócrates e em seus diálogos há muito mais palavras platônicas em Sócrates do que socráticas. Se se pressupõe sua existência ontológica ou ôntica, ele é, seja força, natureza, espírito, sobre este só se é possível sentir ou não. E como indivíduos distintos mesmo que assumindo existência, sentindo, sente-se representativamente, ou seja, unicamente, em cada ser – indivíduo. Usam-se, então, símbolos, ritos, mitos engajados em todas as religiões, mesmo que não de forma igual. Não importa segui-los, mas sabendo suas significações em fé e também como meio de fé externalizada, com significados simbólicos, portanto humanos. Não assumi-los como dogmas inquestionáveis “A hóstia é o corpo de Cristo...” esta representa, enquanto fé e significado que a damos. O fato de ler as “Escrituras Sagradas” de nada me assegura; História e fé se mesclam em quantidades bastante desproporcionais (cerca de apenas 10% de fatos históricos, os outros 90% crê-se). Escrita por homens, lida por homens, traduzida por homens, sobre algo que não estaria sob égide das categorias e compreensão humana. Se houver de fato este algo criador, consciente ou não de si, provavelmente preza pela harmonia, digo-a como a própria harmonia da natureza, a formação da vida, os átomos, as células, os quais cada partícula está como que encaixada perfeitamente para que tudo seja, viva, transforme. Uma harmonia quase pitagórica. Mas não há de fato um Deus ou um Ser, seja ser – physis ou ser – metaphysis que o possa pregar sua adoração, idolatração, e mantenha dogmas atribuindo valores que só seriam válidos se reconhecida sua superioridade, isso seria vaidade. Se existe, ou não, deixe-o Ser e/ou Não-Ser!!! Mas devemos crer numa vivência sob o que os filósofos chamariam de “Ética”, mas ainda que postuladamente superior, pelo agir sem o simples fato de aproveitar o fim (finalidade), mas o fazer pela convivência, por respeito à vida, a natureza, sem pretensões utilitaristas para uma tal transcendentalidade (fazer o bem para ganhar o reino do céu). Cristãos guerreiam “em nome de Deus”, discordam em nome da verdade divina, afirmam todos serem irmãos e o dever do amor entre os homens (veja bem, dever e não o querer), mas aqueles que não assumem sua verdade, de seu grupo religioso, irão para o inferno, não aceitando tal verdade “revelada”. Haveria várias revelações? Várias formas de apropriações ou representações da revelação? Ou ainda, o único grupo que diz a verdade é o qual “faço parte”, as demais por não ser a minha, são falsas? Existiria esse Bem e Mal? Esse maniqueísmo aparece com o cristianismo, não era visto nos primórdios mitológicos por mais místicos que fossem. Um ser é mau o tempo todo ou bom o tempo todo. Se for mau, é para quem? Para outrem não poderia ser seu oposto? Ou melhor, há de ser necessariamente ou um ou seu oposto? Olha! Não sei nada do que há, mas em nome do desespero humano a uma explicação e, atualmente a uma busca de valores, e como uma válvula de escape de uma sociedade tão caótica, assim como o princípio hesiódico “No princípio era o Caos...”, sem sentido e cheio de “derrotas” individuais, aumenta-se as vertentes (religiões) que serviram à História em épocas diferentes (Católicos, Protestantes... Idade Média, Reforma...) e hoje, em meio ao processo do esvaziamento do homem, se multiplicam, multiplicando o esvaziamento do homem, este que se propõe a tantos dogmas erguer, servir e alienar-se como fuga do resto que também não preenche tal vazio e anseio humano. E seus argumentos continuam sendo: “Já lestes a Bíblia? Esta é a palavra de Deus!” A palavra é humana, a ordem e funcionamento das coisas podem ser de força natural motora, mas o que se quer é mantê-la e não colocar o dizer nesta. A preocupação não é com a existência ou não de um ser tangente, mas o que fazer do “princípio” caótico, qual voltamos, e nos encontramos hoje. O que é possível absorver de energia chamada positiva, seja cósmica, ontológica... que nos aproxime de uma evolução e de uma Consciência Humana, ou melhor, uma Consciência da Vida, do viver. Pecado? Pecado é não viver!É não assumir e responsabilizar-se pelos rumos de sua própria vida. È deixar a vida escapar pelos dedos e não senti-la pulsar em seu peito, mas vê-la como expectador, sempre somente à espera do que poderá ver e buscar explicar. Para mim é como se me bastasse uma olhada ao céu estrelado, uma brisa, uma respiração profunda, perante tal universo imenso para senti-lo, é o bastante para renovar-me a cada dia. Se puder ver o pôr e o nascer do sol, sentir a vida, a harmonia indizível, ver a noite negra e misteriosa... não estão à luz (fainestein) , não são fenômenos, absorvíveis à nós, pequenos seres “racionais”, portanto, não se escreve ou preocupa-se sobre isso, deixe-o, sentindo ou não, não promova nomes que não lhe são. Afinal, nem nós somos ou não, mas somos e não, estamos sendo, e neste sendo ainda perdemos todas nossas energias preocupando-nos no que somos, e então deixamos de ser até o sendo! Se Deus existe, porque a fome, a desgraça, a morte de tantos inocentes? Nas reportagens vê-se guerra civil, guerra religiosa, guerra santa.... Livre arbítrio? Como deixas o livre-arbítrio de um ser superior ao de outro, que já não pode escolher sua condição precária ou um estar na catástrofe, (nas favelas, por exemplo) e a cada dia passa pela morte sem escolher e sem ser salvo do homem e do próprio Deus que teria a salvação! Pois a cada bala perdida reza, em nome do desespero, em nome de uma sociedade perdida, em nome de um nome. Realmente não sei avaliar o que é mais difícil: não crer em um Deus salvador, assumindo sua própria vida, não tendo a quem recorrer em sanar suas dores, angústias, anseios e respostas.Ou crer no “Absurdo”, no que não se pode explicar ou entender suas “razões”, mas onde me lançar e confortar-me no momento de desespero.
Juliana Janaina.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Quem foi Kant e o que diz de novo este criticismo?


  • Kant, o arquiteto da crítica;
Por Antônio Rogério da Silva
A vida de Immanuel Kant é uma das mais estranhas entre as estranhas vidas de todos aqueles que se dedicaram à filosofia. Enquanto a maioria dos filósofos modernos foi arrastada pela onda de transformação do pensamento e dos costumes, sendo por conta disso que muitos deles foram obrigados a viajar ou exilar-se em países diferentes de sua origem, Kant permaneceu protegido desse frenesi, graças a uma rotina metódica que espanta quem se interesse pela obra deste autor crucial para história da filosofia. Como Rousseau e Hobbes, o início da vida de Kant foi marcada pela pobreza e uma dura luta pela subsistência. Seu pai era um artesão que produzia selas e artigos de couro. Sua mãe pertencia a uma seita religiosa chamada Pietista que seguia com rigor absoluto todas práticas e crenças religiosas. De sua infância e juventude pouco se sabe, além do fato que o próprio Kant procurava esquecer os anos difíceis da "escravidão juvenil". Os Kant haviam deixado a Escócia um século antes do nascimento de Immanuel, procurando por uma situação mais confortável na Prússia Oriental. O Kant mais famoso era o segundo entre seis irmãos e nasceu, em 22 de abril de 1724, na cidade prussiana de Königsberg (depois da invasão russa, em 1945, Kaliningrado). Cresceu, trabalhou, estudou, pensou, escreveu e envelheceu sem nunca ter atravessado os limites da cidade. Morreu tranquilo na senilidade, a 12 de fevereiro de 1804.
No colégio Fridericianum, teve sua instrução básica iniciada em 1732, e na Universidade de Königsberg formou-se em 1755. Durante o período de formação, sobreviveu como professor particular de famílias ricas até conseguir o grau de mestre. Aos 31 anos, começa a trabalhar nessa universidade como conferencista particular (Privatdozent) proferindo por mais 15 anos aulas sobre diversas matérias, desde matemática e física até geografia e ética. Johann Gottfried von Herder (1744-1803), que fora seu aluno, disse certa vez que "nada digno de ser conhecido lhe era indiferente". Depois de duas tentativas para ingressar no cargo de professor da universidade, em 1770, finalmente, Kant consegue a nomeação de professor de lógica e metafísica.
Seu cotidiano era regido por uma regularidade mecânica e tudo tinha a hora certa para acontecer. Pela manhã, acordava cedo e se punha a trabalhar, nada comendo até o almoço. Durante o almoço, servido sempre na presença de três a oito convidados, conversava animadamente sobre qualquer assunto de interesse, menos sua própria filosofia. Às 15 horas e 30 minutos saía a passear sozinho, a fim de respirar calmamente, pelo nariz, e exercitar-se ao caminho. Tal era a precisão de seus hábitos, que uma anedota conta dos habitantes da alameda de tílias, pela qual Kant sempre passava, costumarem acertar seus relógios quando avistavam o filósofo se aproximando. Por causa disso, essa rua passou a ser conhecida em Königsberg, como o Passeio do Filósofo. Depois da caminhada, dirigia-se a sua biblioteca e lia até anoitecer. Por volta das dez horas, afastava-se de qualquer esforço mental, no intuito de preparar o sono. Dessa rotina agradável da maturidade, Kant nunca se afastou, tendo a quebrado apenas por duas vezes: primeiro quando leu o Emílio de Rousseau e depois ao esperar notícias da Revolução Francesa.
Kant tinha baixa estatura, media cerca de um metro e sessenta de altura, em um corpo franzino, e com estranhos era de uma timidez extrema. Por duas vezes, teve a oportunidade de pedir a mão de duas moças, mas uma se mudou da cidade antes que ele se decidisse lhe propor o casamento e a segunda, cansada de esperar, aceitou o convite de outro rapaz mais ousado. Assim, Kant deixou passar as chances de casamento, ficando solteiro por toda sua longa vida.


O Criticismo Kantiano
Antes de Kant, a filosofia oscilava como o pêndulo de Galileu, entre o materialismo e empirismo de um lado e o inatismo e racionalismo de outro. Dogmáticos idealistas e céticos naturalistas revezavam-se no posto de quem proferiria a última palavra sobre o entendimento humano. Desde 1770, Kant impôs-se como tarefa parar com essa troca constante de posições propondo uma investigação sobre como a metafísica era possível de ser entendida por ciência. Deveria então a crítica filosófica encontra um objeto, ou a fonte de conhecimento, ou ainda o modo de pensar que fosse peculiar à metafísica. Caso essa pesquisa apontasse resultados negativos, as pretensões metafísicas de ser uma ciência própria deveriam ser afastadas de vez.
A Critica da Razão Pura, cuja primeira edição saiu em 1781, iniciou essa tarefa de forma sistemática, procurando as características típicas da metafísica, ou do conhecimento filosófico puro. Kant pensava que a física, a matemática e a geometria de seu tempo já haviam encontrado formas de conhecimento que satisfaziam seu estatuto científico, enquanto a metafísica não era capaz de fornecer, sequer, um juízo sintético a priori. Calma! Com isso Kant queria dizer que para uma atividade ser considerada científica era preciso que ela apresentasse proposições, ou enunciados, que fornecessem informações adicionais sobre o sujeito estudado e, além disso, que transcendessem a qualquer experiência, isto é, que fossem entendidas sem o recurso das relações das coisas materiais. Tal juízo deveria estar puro de um contato empírico, como instrumento da razão humana. A posse de um conhecimento puro seria importante para qualquer ciência, uma vez que tal conhecimento garantiria a sua necessidade.
A experiência ensina que uma coisa pode ser constituída de uma maneira ou de outra, mas nada diz se o que está sendo observado não possa ocorrer de forma diferente. Essa lição Kant já havia aprendido com Hume. Tratava-se então de encontrar um juízo necessário para toda metafísica poder ficar de pé. Mas antes, é importante primeiro fazer algumas distinções e definições. Assim sendo, Kant começa por definir a diferença entre juízos analíticos e sintéticos. Por analíticos entendem-se os juízos cujos predicados fazem parte da identidade do sujeito. Por exemplo, se o ouro for definido como metal amarelo maleável, ao se emitir um juízo que enuncie ser ouro amarelo, este juízo será analítico e nenhum conteúdo acrescenta ao conceito de ouro. O que vale dizer que todos juízos analíticos são apenas explicativos. Já os juízos sintéticos trazem em seu predicado uma informação que não pode ser extraída do conceito do sujeito e que, portanto, se encontra fora de sua definição. Dizer que "alguns corpos são pesados" amplia o conhecimento que se tem do conceito geral de corpo, sendo então um juízo extensivo, por estender a compreensão que se tem previamente do sujeito. Todos juízos analíticos são concebidos a priori, ao passo que os sintéticos poderiam ser a posteriori, com origem na experiência, ou a priori, formados no entendimento puro e na razão pura.
Todas as ciências teóricas - a matemática, geometria e a física -, imaginava Kant, teriam juízos sintéticos a priori como seus princípios fundamentais, caberia à metafísica encontrar seus princípios sintéticos uma vez que ela teria como fonte apenas o conhecimento puro a priori. O próximo passo para solucionar esse problema foi descrever a estrutura da razão que produz tais juízos. Na "Doutrina Transcendental dos Elementos", primeira divisão da Crítica da Razão Pura, Kant apresenta em primeiro lugar sua "Estética Transcendental", onde descreve os princípios da sensibilidade a priori. A sensibilidade, nesse sentido, seria a capacidade de receber representações do objetos percebidos. Através da sensibilidade os objetos são dados e a intuição empírica é fornecida, de acordo com as sensações provocadas pelos objetos. Os objetos da intuição empírica são chamados fenômenos. Os conceitos relativos aos fenômenos são gerados pelo entendimento, tendo por base apenas as intuições da sensibilidade. Além das intuições empíricas, a sensibilidade forneceria as intuições puras como formas próprias que não dependem de um objeto real dos sentidos, mas são a condição para que estes sejam percebidos em sua extensão e duração. Tais intuições puras a priori seriam o sentido externo do espaço, onde os objetos são representados como sendo do lado de fora do sujeito, e o sentido interno do tempo que representa dentro do sujeito a sensação de passagem ou permanência de um objeto. Tempo e espaço não seriam conceitos empíricos, mas a condição da sensibilidade para que a experiência seja possível, portanto, antecedem a esta e são intuições puras a priori .
Depois disso, resta descrever como o entendimento gera as representações e o entendimento daquilo que é percebido pelo sensibilidade. A Lógica transcendental vem determinar a origem e o alcance desses conhecimentos. Na estética, Kant concluiu que só é possível ter intuições sensíveis e que as supostas intuições puras, nada mais são que as formas puras da sensibilidade - espaço e tempo - que permitem a recepção externa e interna dos objetos. Portanto, apoiado em intuições sensiveis o entendimento deverá pensar os objetos, a fim de gerar o conhecimento, pela união da intuição com o pensamento. Não obstante, para que seja um conhecimento puro, como convém à metafísica, a lógica trancendental deve analisar se existe algum conceito que seja puro e independente da sensibilidade. Seria então esse conhecimento oriundo de idéias trancendentais. Ao longo da primeira crítica, Kant se esforçou em tentar mostrar a impossibilidade do entendimento em resolver dos problemas inerentes às idéias psicológicas, da existência da alma ou de sujeitos absolutos; cosmológicas, sobre a origem e infinitude do universo; e teológicas, existência de um ser supremo.
Em sua obra seguinte, Prolegômenos (1783), Kant resume toda essa discussão na constatação que a indecisão quanto aos problemas da antinomia das idéais transcendentais leva à limitação do uso da razão ao conhecimento empírico.
Servi-me para o início desta observação da imagem sensível de um limite, para fixar as barreiras da razão em relação ao uso que lhe é apropriado. O mundo dos sentidos contém meros fenômenos, que ainda não são coisas em si mesmas. Estas últimas (númenos) devem ser admitidas pelo entendimento, justamente pelo fato de ele conhecer os objetos da experiência como simples fenômenos. (...) A experiência, que contém tudo o que pertence ao mundo dos sentidos, não se limita a si mesma; de cada condicionado, chega sempre só a outro condicionado. O que deve limitá-la encontra-se necessariamente fora dela, e este é o campo dos puros entes de entendimento. Mas este é para nós espaço vazio, em se tratando da determinação da natureza destes entes de entendimento e, portanto, se temos em vista conceitos dogmamente determinados, não podemos ir além do campo da experiência possível. (...) Mas a limitação do campo da experiência por algo, que aliás lhe é desconhecido, é um conhecimento que resta à razão neste ponto, mediante o qual ela não se encerra dentro do mundo dos sentidos, nem vagueia fora do mesmo, mas, como convém ao conhecimento do limite, circunscreve-se apenas à relação daquilo que está fora dela com o que está contido dentro do mesmo limite (KANT, I. Prolegômenos, III parte, § 59, p. 83).
Dentre as antinomias que correspondem aos conflitos em que as idéias transcendentais podem suscitar argumentos contra e a favor, aquela que diz respeito à cadeia causal de eventos cosmológicos, também conhecida como a "Terceira Antinomia", coloca um problema cuja solução interessa diretamente à moral. Em suma, o problema que a razão pura aqui se põe é saber se há uma causa necessária que determine o desenlace de toda série causal entre as coisas no mundo, ou caso contrário se esta causa não existe e tudo ocorre de forma livre e contingente da série causal, a grosso modo. Com intuito de preservar a liberdade em um mundo de fenômenos estritamente determinados, Kant propõe na primeira Crítica que as ações livres tenham que se relacionar apenas com uma causa inteligível no sujeito, independente da sensibilidade e que pode condicionar algum evento fenomênico. Esse tipo de solução visou atender um uso prático da razão cuja fundamentação apareceria no texto que antecedeu a segunda Crítica, Fundamentação da Metafísica dos Costumes (1785).


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