A Rede Globo de Televisão, emissora que fez questão de transmitir o ultimo debate entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo nesta quinta-feira (4 de outubro de 2012), cancelou o debate alegando que não poderia cumprir a lei - que garante que todos os candidatos com representação nas pesquisas têm o direito de participar - alegando que a quantidade de candidatos não é "apropriado para o formato de televisão" (alegação que não atrapalhou nem a Band, nem a Gazeta e nem a Cultura de realizarem os seus debates.
Por outro lado, a Rede Globo tem um longo histórico de aproximação com o PSDB, chegando a abrigar em sua corporação ex-assessores de altos membros do tucanato em cargos-chave da organização (como editor-chefe do jornal OGLOBO).
Diante da tragédia anunciada que é o desempenho do candidato do PSDB nos debates e nas pesquisas, a única forma de tentar frear a queda vertiginosa de José Serra na aceitação do eleitor é sumir com o candidato.
E porque será que a tribuna não fez debate dos candidatos de Santos... difícil saber, né?
Os caras que lutaram contra a Ditadura Militar, tanto O Dirceu, quanto o Genoino, que escaparam com vida do Regime Militar, são agora perseguidos pela chamada democracia, é vergonhoso e fere os direitos institucionais. Tudo em prol de campanhas anti-petistas para ganharem o poder e convencer a população...
Nossos crocodilos ficaram sentimentais. Em toda parte vejo lágrimas que
acompanham os votos que condenam José Genoino.
Na imprensa, em conversas com amigos, ouço o comentário, em tom de
solidariedade. Parece consciência pesada, em alguns casos.
Não estamos diante de um melodrama mas de uma tragédia.
Genoino está sendo condenado num julgamento marcado por incongruências,
denuncias incompletas e presunções de culpa que começam a incomodar estudiosos
e acadêmicos. Foi isso que explicou Margarida Lacombe, professora de
Direito da UFRJ, em comentário na Globo News. Sem perder suavidade na
voz, a professora falou sobre necessidade de provas contundentes
quando se pretende privar a liberdade de uma pessoa. Não falou de casos concretos,
não criticou. Fez o melhor: informou. Lembrou como esse ponto – a
liberdade – é importante.
Vamos começar.
O STF que está condenando Genoino absolveu Fernando Collor com o argumento de
“falta de provas.”
É o mesmo STF que, em tempos muito mais recentes, impediu que o país apurasse,
investigasse e punisse a tortura ocorrida no regime militar.
Então ficamos assim. José Genoino, vítima da tortura que o STF impediu que
fosse apurada, será condenado por corrupção, ao contrário de Fernando Collor.
Parece o Samba do Crioulo Doido do Stanislaw Ponte Preta. É. Mas não é o texto.
E a “realidade brasileira”, como se dizia no tempo em que a polícia política
perseguia militantes como Genoino.
Não há provas materiais contra Genoino e tudo que se pode alegar contra ele é
menos consistente do que se poderia alegar contra Collor. Mas as provas
da tortura são abundantes. Estão nos arquivos do Brasil Nunca Mais e em
outros trabalhos. Foram arrancadas na dor, no sofrimento, na porrada, no sangue
e, algumas vezes, na morte. Em plena ditadura, 1918 vítimas da tortura deixaram
registros dessa violência nos arquivos da Justiça Militar. Nenhuma foi
apurada e, se depender da decisão do STF, nunca será.
Collor foi beneficiado porque provas muito contundentes contra ele
foram anuladas. Considerou-se, na época, que a privacidade do tesoureiro
PC Farias havia sido violada quando a Polícia Federal quebrou o sigilo de um
computador que servia ao esquema. Essa decisão – em nome da privacidade —
salvou Collor.
Você pode dizer que os tempos eram outros e que agora não se aceita mais tanta
impunidade. Aceita-se. Basta lembrar que, na mesma época, o mensalão do PSDB-MG
virou fumaça na Justiça Comum. E quando Márcio Thomaz Bastos tentou mudar o
julgamento do mensalão federal, alegou-se que era no STF que os crimes graves
são punidos.
Vamos continuar.
Genoino está sendo condenado porque “não é plausível” que não soubesse do
esquema. “Plausível”, informa o Houaiss, é sinônimo de aceitável,
razoável. Olha o tamanho da subjetividade, da incerteza.
Isso porque ele assinou o pedido de empréstimo de R$ 3,5 milhões para o Banco
Rural e por dez vezes refez o pedido. Não é plausível imaginar que um
presidente do PT fizesse tudo isso sem saber de nada, acreditam três ministros
do Supremo.
Mas fatos que são líquidos e certos não comoveram a acusação com a mesma
clareza.
O empresário Daniel Dantas deu R$ 3,5 milhões para amolecer Delúbio Soares e
Marcos Valério e cair nas graças do esquema. Não foram R$ 3,5 milhões
subjetivos mas inteiramente objetivos.
Um pouco mais tarde, seu braço direito Carla Cicco assinou um contrato de R$ 50
milhões com as agências de Marcos Valério para transformar a turma do PT em
geléia. Chegaram tarde. Depois de pagar a primeira prestação, a casa caiu e
eles suspenderam o pagamento.
Como não gosto de pré-julgar, não acho que Daniel Dantas seja culpado por
antecipação. Não acho mesmo. Vai ver que estava tudo lá, bonitinho. Também
podia ser ajuda para o Fome Zero rsrsrsrsrs
Ou quem sabe fosse tudo para Valubio.
Mas não teria sido melhor que ele fosse ouvido no tribunal, para mostrar sua
inocência?
Não teria sido uma forma de mostrar que a Justiça é cega?
Mas ela não foi.
O esquema privado do mensalão, informa a CPMI, chegou a R$ 200 milhões. Quantos
empresários foram lá, dar explicações? Nenhum.
Alguém acha plausível, aceitável, razoável, que fossem inocentados por
antecipação?
Não há nada “plausível” que se possa fazer com R$ 200 milhões?
Só a Telemig, que pertencia ao grupo Opportunity, de Daniel Dantas, entregou
mais dinheiro às agências de Valério do que o Visanet, que jogou o petista
Henrique Pizzolato na vala dos condenados logo nos primeiros dias.
O que é plausível, neste caso?
Nós sabemos – e ninguém duvida disso – que Genoino fazia política o tempo
inteiro. Fez isso a vida toda, com tamanha inquietação que, numa fase
andou pela guerrilha do Araguaia e, em outra, ficou tão moderado que parecia
que ia preencher ficha de ingresso no PSDB.
Chegou a liderar um partido revolucionário à esquerda do PC do B e depois
integrou as correntes mais à direita do PT.
Então vamos lá. É plausível imaginar que Genoino tenha ido atrás de recursos de
campanha? Sim. É plausível e até natural. Basta deixar de ser hipócrita para
compreender. Política se faz com quadros, imprensa, propaganda, funcionários.
Isso custa dinheiro.
Isso fez dele um dirigente que subornava adversários para convencê-los a
mudar de lado, como quer a acusação? Não.
Eu não acho plausível, nem aceitável nem razoável. Duvido inteiramente, aliás.
E se eu tiver errado, quero que me provem – de forma clara, contundente. Sem
essas suposições, sem um quebra-cabeças que joga com a liberdade humana.
Sem fogueira de tantas vaidades.
Não chore por nós Genoino.
Alegou-se que a tortura não poderia ser apurada para preservar a transicão
democrática.
A democracia avançou, as conquistas foram imensas. Mas os perseguidos, no
fundo, bem no fundo, são os mesmos.
Não é um melodrama. É uma tragédia.
fotografia de 13 dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador Elbrick – sequestrado numa ação conjunta da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). (entre eles, José Dirceu) - fonte: http://blogdofavre.ig.com.br/tag/presos/
A 2ª temporada do "The X-Factor" mal começou nos Estados Unidos e já está pegando fogo. Tudo isso porque um concorrente soltou o verbo contra a jurada Demi Lovato, acusando a cantora de usar o auto-tune, aquele dispositivo que ajuda na afinação de voz.
Criado em 1994, o recurso se popularizou quatro anos depois. O programa de computador, que inicialmente tinha como objetivo ajustar imperfeições, acabou virando febre e é utilizado além do ideal. "É algo útil que virou praga a partir do mau gosto de DJs, radialistas e do próprio público americano. O big bang do modismo se deu com "Believe" (gravado em 1998), com a Cher, cantora que normalmente não necessitaria desse tipo de recurso. Além da 'brincadeirinha' do efeito, ele também pode mascarar a falta de talento de várias cantoras e cantores", explica o editor-chefe da revista Billboard Brasil, Pedro Só.
Além de Demi, artistas como Rihanna, Lady Gaga, Miley Cyrus, Justin Bieber, Ke$ha e Beyoncé ... exageram no auto-tune nas gravações de suas músicas e muitas vezes precisam de uma ajuda do playback (em determinadas partes ou até mesmo toda apresentação) para que, ao vivo, a plateia não sinta tanta diferença da versão que está acostumada a ouvir.
Estes são os "cantores" que fazem sucesso hoje, nem conseguem ser afinados sem a tecnologia, e carregam "fãs" no mundo todo e nem artistas são de verdade, mas arquétipos montados pela sociedade do espetáculo, para milhares de jovens se despersonalizarem e seguirem um padrão imaginário, mas que gera muito lucro e submissão.
Fiel denuncia manipulação de votos pela Igreja Universal em favor de Russomanno
Foi divulgado na tarde desta sexta-feira (5) um vídeo (veja abaixo) que denuncia a manipulação de votos pela Igreja Universal do Reino de Deus em favor do candidato a prefeito de São Paulo Celso Russomanno. Na gravação veiculada pelo canal no Youtube “PosTV”, a ex-obreira da IURD Regiane Brito, de 22 anos, conta como os partores a obrigavam a angariar votos para o candidato do PRB entre os fiéis da Igreja. O motivo, segundo Regiane, era claro: Russomanno, uma vez eleito, traria benefícios para a construção do Templo de Salomão, no Brás, na zona leste da capital. “Eles estavam usando da boa votande, da fidelidade das pessoas para com a Igreja para conseguir votos para o Russomanno”, conta Regiane. “Eu estava me sentindo uma fantoche, uma marionete”.
Num evento em defesa da
liberdade de expressão e por uma Ley de Medios, realizado no Sindicato dos
Jornalistas de São Paulo, nessa segunda feira, a professora Marilena Chauí fez
uma palestra antológica.
I.
Democracia e autoritarismo social
Estamos acostumados a aceitar a definição liberal da
democracia como regime da lei e da ordem para a garantia das liberdades
individuais. Visto que o pensamento e a prática liberais identificam a
liberdade com a ausência de obstáculos à competição, essa definição da democracia
significa, em primeiro lugar, que a liberdade se reduz à competição econômica
da chamada “livre iniciativa” e à competição política entre partidos que
disputam eleições; em segundo, que embora a democracia apareça justificada como
“valor” ou como “bem”, é encarada, de fato, pelo critério da eficácia, medida
no plano do poder executivo pela atividade de uma elite de técnicos competentes
aos quais cabe a direção do Estado. A democracia é, assim, reduzida a um regime
político eficaz, baseado na ideia de cidadania organizada em partidos
políticos, e se manifesta no processo eleitoral de escolha dos representantes,
na rotatividade dos governantes e nas soluções técnicas para os problemas
econômicos e sociais.
Ora, há, na prática democrática e nas ideias democráticas,
uma profundidade e uma verdade muito maiores e superiores ao que liberalismo
percebe e deixa perceber.
Podemos, em traços breves e gerais, caracterizar a democracia
ultrapassando a simples idéia de um regime político identificado à forma do governo,
tomando-a como forma geral de uma sociedade e, assim, considerá-la:
1. forma sociopolítica definida pelo
princípio da isonomia ( igualdade dos cidadãos perante a lei) e da isegoria
(direito de todos para exporem público
suas opiniões, vê-las discutidas, aceitas ou recusadas em público), tendo como
base a afirmação de que todos são iguais porque livres, isto é, ninguém está
sob o poder de um outro porque todos obedecem às mesmas leis das quais todos
são autores (autores diretamente, numa democracia participativa; indiretamente,
numa democracia representativa). Donde o maior problema da democracia numa
sociedade de classes ser o da manutenção de seus princípios – igualdade e
liberdade – sob os efeitos da desigualdade real;
2. forma política na qual, ao contrário
de todas as outras, o conflito é considerado legítimo e necessário, buscando
mediações institucionais para que possa exprimir-se. A democracia não é o
regime do consenso, mas do trabalho dos e sobre os conflitos. Donde uma outra
dificuldade democrática nas sociedades de classes: como operar com os conflitos
quando estes possuem a forma da contradição e não a da mera oposição?
3. forma sociopolítica que busca
enfrentar as dificuldades acima apontadas conciliando o princípio da igualdade
e da liberdade e a existência real das desigualdades, bem como o princípio da
legitimidade do conflito e a existência de contradições materiais introduzindo,
para isso, a ideia dos direitos ( econômicos, sociais, políticos e culturais).
Graças aos direitos, os desiguais conquistam a igualdade, entrando no espaço
político para reivindicar a participação nos direitos existentes e sobretudo
para criar novos direitos. Estes são novos não simplesmente porque não existiam
anteriormente, mas porque são diferentes daqueles que existem, uma vez que
fazem surgir, como cidadãos, novos sujeitos políticos que os afirmaram e os
fizeram ser reconhecidos por toda a sociedade.
4. graças à ideia e à prática da
criação de direitos, a democracia não define a liberdade apenas pela ausência
de obstáculos externos à ação, mas a define pela autonomia, isto é, pela
capacidade dos sujeitos sociais e políticos darem a si mesmos suas próprias
normas e regras de ação. Passa-se, portanto, de uma definição negativa da
liberdade – o não obstáculo ou o não constrangimento externo – a uma definição
positiva – dar a si mesmo suas regras e normas de ação. A liberdade possibilita
aos cidadãos instituir contra-poderes sociais por meio dos quais interferem
diretamente no poder por meio de reivindicações e controle das ações estatais.
5. pela criação dos direitos, a
democracia surge como o único regime político realmente aberto às mudanças
temporais, uma vez que faz surgir o novo como parte de sua existência e,
consequentemente, a temporalidade é constitutiva de seu modo de ser, de maneira
que a democracia é a sociedade verdadeiramente histórica, isto é, aberta ao
tempo, ao possível, às transformações e ao novo. Com efeito, pela criação de
novos direitos e pela existência dos contra-poderes sociais, a sociedade
democrática não está fixada numa forma para sempre determinada, pois não cessa
de trabalhar suas divisões e diferenças internas, de orientar-se pela
possibilidade objetiva de alterar-se pela própria práxis;
6. única forma sociopolítica na qual o
caráter popular do poder e das lutas tende a evidenciar-se nas sociedades de
classes, na medida em que os direitos só ampliam seu alcance ou só surgem como
novos pela ação das classes populares contra a cristalização jurídica-política
que favorece a classe dominante. Em outras palavras, a marca da democracia
moderna, permitindo sua passagem de democracia liberal á democracia social,
encontra-se no fato de que somente as classes populares e os excluídos (as
“minorias”) reivindicam direitos e criam novos direitos;
7. forma política na qual a distinção
entre o poder e o governante é garantida não só pela presença de leis e pela
divisão de várias esferas de autoridade, mas também pela existência das
eleições, pois estas ( contrariamente do que afirma a ciência política) não
significammera “alternância no poder”,
mas assinalam que o poder está sempre vazio, que seu detentor é a sociedade e
que o governante apenas o ocupa por haver recebido um mandato temporário para
isto. Em outras palavras, os sujeitos políticos não são simples votantes, mas
eleitores. Eleger significa não só exercer o poder, mas manifestar a origem do
poder, repondo o princípio afirmado pelos romanos quando inventaram a política:
eleger é “dar a alguém aquilo que se possui, porque ninguém pode dar o que não
tem”, isto é, eleger é afirmar-se soberano para escolher ocupantes temporários
do governo.
Dizemos, então, que uma sociedade — e não um simples regime
de governo — é democrática quando, além de eleições, partidos políticos,
divisão dos três poderes da república, respeito à vontade da maioria e da
minoria, institui algo mais profundo, que é condição do próprio regime
político, ou seja, quando institui direitos e que essa instituição é uma
criação social, de tal maneira que a atividade democrática social realiza-se
como uma contra-poder social que determina, dirige, controla e modifica a ação
estatal e o poder dos governantes.
Se esses são os principais traços da sociedade democrática,
podemos avaliar as enormes dificuldades para instituir a democracia no Brasil.
De fato, a sociedade brasileira é estruturalmente violenta, hierárquica,
vertical, autoritária e oligárquica e o Estado é patrimonialista e cartorial,
organizado segundo a lógica clientelista e burocrática. O clientelismo bloqueia
a prática democrática da representação—
o representante não é visto como portador de um mandato dos representados, mas
como provedor de favores aos eleitores. A burocracia bloqueia a democratização
do Estado porque não é uma organização do trabalho e sim uma forma de poder
fundada em três princípios opostos aos democráticos: a hierarquia, oposta à
igualdade; o segredo, oposto ao direito à informação; e a rotina de
procedimentos, oposta à abertura temporal da ação política.
Além disso, social e economicamente nossa sociedade está
polarizada entre a carência absoluta das camadas populares e o privilégio
absoluto das camadas dominantes e dirigentes, bloqueando a instituição e a
consolidação da democracia. Um privilégio é, por definição, algo particular que
não pode generalizar-se nem universalizar-se sem deixar de ser privilégio. Uma
carência é uma falta também particular ou específica que se exprime numa
demanda também particular ou específica, não conseguindo generalizar-se nem
universalizar-se. Um direito, ao contrário de carências e privilégios, não é
particular e específico, mas geral e universal,seja porque é o mesmo e válido para todos os indivíduos, grupos e
classes sociais, seja porque embora diferenciado é reconhecido por todos (como
é caso dos chamados direitos das minorias). Assim, a polarização
econômico-social entre a carência e o privilégio ergue-se como obstáculo à
instituição de direitos, definidora da democracia.
A esses obstáculos, podemos acrescentar ainda aquele
decorrente do neoliberalismo, qual seja o encolhimento do espaço público e o
alargamento do espaço privado. Economicamente, trata-se daeliminação de direitos econômicos, sociais e
políticos garantidos pelo poder público, em proveito dos interesses privados da
classe dominante, isto é, em proveito docapital; a economia e a política neoliberais são a decisão de destinar
os fundos públicos aos investimentos do capital e de cortar os investimentos
públicos destinados aos direitos sociais, transformando-os em serviços
definidos pela lógica do mercado, isto é, a privatização dos direitos
transformados em serviços, privatização que aumenta a cisão social entre a
carência e o privilégio, aumentando todas formas de exclusão. Politicamente o
encolhimento do público e o alargamento do privado colocam em evidência o
bloqueio a um direito democrático fundamental sem o qual a cidadania, entendida
como participação social, política e cultural é impossível, qual seja, o
direito à informação.
II. Os meios de
comunicação como exercício de poder
Podemos focalizar o exercício do poder pelos meios de
comunicação de massa sob dois aspectos principais: o econômico e o ideológico.
Do ponto de vista econômico, os meios de comunicação fazem
parte da indústria cultural. Indústria porque são empresas privadas operando no
mercado e que, hoje, sob a ação da chamada globalização, passa por profundas
mudanças estruturais, “num processo nunca visto de fusões e aquisições,
companhias globais ganharam posições de domínio na mídia.”, como diz o
jornalista Caio Túlio Costa. Além da forte concentração (os oligopólios beiram
o monopólio), também é significativa a presença, no setor das comunicações, de
empresas que não tinham vínculos com ele nem tradição nessa área. O porte dos
investimentos e a perspectiva de lucros jamais vistos levaram grupos
proprietários de bancos, indústria metalúrgica, indústria elétrica e
eletrônica, fabricantes de armamentos e aviões de combate, indústria de
telecomunicações a adquirir, mundo afora, jornais, revistas, serviços de
telefonia, rádios e televisões, portais de internet, satélites, etc..
No caso do Brasil, o poderio econômico dos meios é
inseparável da forma oligárquica do poder do Estado, produzindo um dos
fenômenos mais contrários à democracia, qual seja, o que Alberto Dines chamou
de “coronelismo eletrônico”, isto é, a forma privatizada das concessões
públicas de canais de rádio e televisão, concedidos a parlamentares e lobbies
privados, de tal maneira que aqueles que deveriam fiscalizar as concessões
públicas se tornam concessionários privados, apropriando-se de um bem público
para manter privilégios, monopolizando a comunicação e a informação. Esse
privilégio é um poder político que se ergue contra dois direitos democráticos
essenciais: a isonomia (a igualdade perante a lei) e a isegoria (o direito à
palavra ou o igual direito de todos de expressar-se em público e ter suas
opiniões publicamente discutidas e avaliadas). Numa palavra, a cidadania
democrática exige que os cidadãos estejam informados para que possam opinar e
intervir politicamente e isso lhes é roubado pelo poder econômico dos meios de
comunicação.
A isonomia e a isegoria são também ameaçadas e destruídas
pelo poder ideológico dos meios de comunicação. De fato, do ponto de vista
ideológico, a mídia exerce o poder sob a forma do denominamos a ideologia da
competência, cuja peculiaridade está em seu modo de aparecer sob a forma
anônima e impessoal do discurso do conhecimento, e cuja eficácia social,
política e cultural está fundada na crença na racionalidade técnico-científica.
A ideologia da competência pode ser resumida da seguinte
maneira: não é qualquer um que pode em qualquer lugar e em qualquer ocasião
dizer qualquer coisa a qualquer outro. O discurso competente determina de
antemão quem tem o direito de falar e quem deve ouvir, assim como pré-determina
os lugares e as circunstâncias em que é permitido falar e ouvir, e define
previamente a forma e o conteúdo do que deve ser dito e precisa ser ouvido.
Essas distinções têm como fundamento uma distinção principal, aquela que divide
socialmente os detentores de um saber ou de um conhecimento (científico,
técnico, religioso, político, artístico), que podem falar e têm o direito de
mandar e comandar, e os desprovidos de saber, que devem ouvir e obedecer. Numa
palavra, a ideologia da competência institui a divisão social entre os
competentes, que sabem e por isso mandam, e os incompetentes, que não sabem e
por isso obedecem.
Enquanto discurso do conhecimento, essa ideologia opera com a
figura do especialista. Os meios de comunicação não só se alimentam dessa
figura, mas não cessam de instituí-la como sujeito da comunicação. O
especialista competente é aquele que, no rádio, na TV, na revista, no jornal ou
no multimídia, divulga saberes, falando das últimas descobertas da ciência ou
nos ensinando a agir, pensar, sentir e viver. O especialista competente nos
ensina a bem fazer sexo, jardinagem, culinária, educação das crianças,
decoração da casa, boas maneiras, uso de roupas apropriadas em horas e locais
apropriados, como amar Jesus e ganhar o céu, meditação espiritual, como ter um
corpo juvenil e saudável, como ganhar dinheiro e subir na vida.O principal especialista, porém, não se
confunde com nenhum dos anteriores, mas é uma espécie de síntese, construída a
partir das figuras precedentes: é aquele que explica e interpreta as notícias e
os acontecimentos econômicos, sociais, políticos, culturais, religiosos e
esportivos, aquele que devassa, eleva e rebaixa entrevistados, zomba, premia e
pune calouros— em suma, o chamado
“formador de opinião” e o “comunicador”.
Ideologicamente, o
poder da comunicação de massa não é um simples inculcação de valores e ideias,
pois, dizendo-nos o que devemos pensar, sentir, falar e fazer, o especialista,
o formador de opinião e o comunicados nos dizem que nada sabemos e por isso seu
poder se realiza como manipulação e intimidação social e cultural.
Um dos aspectos mais terríveis desse duplo poder dos meios de
comunicação se manifesta nos procedimentos midiáticos de produção da culpa e
condenação sumária dos indivíduos, por meio de um instrumento psicológico
profundo: a suspeição, que pressupõe a presunção de culpa. Ao se referir ao
período do Terror, durante a Revolução Francesa,Hegel considerou que uma de suas marcas essenciais
é afirmar que, por princípio, todos são suspeitos e que os suspeitos são
culpados antes de qualquer prova. Ao praticar o terror, a mídia fere dois
direitos constitucionais democráticos, instituídos pela Declaração dos Direitos
do Homem e do Cidadão, de 1789 (Revolução Francesa) e pela Declaração Universal
dos Direitos Humanos, de 1948, quais sejam: a presunção de inocência (ninguém
pode ser considerado culpado antes da prova da culpa) e a retratação pública
dos atingidos por danos físicos, psíquicos e morais, isto é, atingidos pela infâmia,
pela injúria e pela calúnia. É para assegurar esses dois direitos que as
sociedades democráticas exigem leis para regulação dos meios de comunicação,
pois essa regulação é condição da liberdade e da igualdade que definem a
sociedade democrática.
III.
Faz parte da vida da grande maioria da população brasileira
ser espectadora de um tipo de programa de televisão no qual a intimidade das
pessoas é o objeto central do espetáculo: programas de auditório, de
entrevistas e de debates com adultos, jovens e crianças contando suas
preferências pessoais desde o sexo até o brinquedo, da culinária ao vestuário,
da leitura à religiosidade, do ato de escrever ou encenar uma peça teatral, de
compor uma música ou um balé até os hábitos de lazer e cuidados corporais.
As ondas sonoras do rádio e as transmissões televisivas
tornam-se cada vez mais consultórios sentimental, sexual, gastronômico,
geriátrico, ginecológico, culinário, de cuidados com o corpo (ginástica,
cosméticos, vestuário, medicamentos), de jardinagem, carpintaria, bastidores da
criação artística, literária e da vida doméstica. Há programas de entrevista no
rádio e na televisão que ou simulam uma cena doméstica – um almoço, um jantar –
ou se realizam nas casas dos entrevistados durante o café da manhã, o almoço ou
o jantar, nos quais a casa é exibida, os hábitos cotidianos são descritos e
comentados, álbuns de família ou a própria são mostrados ao vivo e em cores. Os
entrevistados e debatedores, os competidores dos torneios de auditório, os que
aparecem nos noticiários, todos são convidados e mesmo instados com vigor a que
falem de suas preferências, indo desde sabores de sorvete até partidos
políticos, desde livros e filmes até hábitos sociais. Não é casual que os
noticiários, no rádio e na televisão, ao promoverem entrevistas em que a
notícia é intercalada com a fala dos direta ou indiretamente envolvidos no
fato, tenham sempre repórteres indagando a alguém: “o que você sentiu/sente com
isso?” ou “o que você achou/acha disso?” ou “você gosta? não gosta disso?”. Não
se pergunta aos entrevistados o que pensam ou o que julgam dos acontecimentos,
mas o que sentem, o que acham, se lhes agrada ou desagrada.
Também tornou-se um hábito nacional jornais e revistas
especializarem-se cada vez mais em telefonemas a “personalidades”
indagando-lhes sobre o que estão lendo no momento, que filme foram ver na
última semana, que roupa usam para dormir, qual a lembrança infantil mais
querida que guardam na memória, que música preferiam aos 15 anos de idade, o
que sentiram diante de uma catástrofe nuclear ou ecológica, ou diante de um
genocídio ou de um resultado eleitoral, qual o sabor do sorvete preferido, qual
o restaurante predileto, qual o perfume desejado. Os assuntos se equivalem,
todos são questão de gosto ou preferência, todos se reduzem à igual banalidade
do “gosto” ou “não gosto”, do “achei ótimo” ou “achei horrível”.
Todos esses fatos nos
conduzem a uma conclusão: a mídia está imersa na cultura do narcisismo.
Como observa Christopher Lash, em A Cultura do Narcisismo, os
mas media tornaram irrelevantes as categorias da verdade e da falsidade
substituindo-as pelas noções de credibilidade ou plausibilidade e
confiabilidade – para que algo seja aceito como real basta que apareça como
crível ou plausível, ou como oferecido por alguém confiável Os fatos cedem
lugar a declarações de “personalidades autorizadas”, que não transmitem
informações, mas preferências e estas se convertem imediatamente em propaganda.
Como escreve Lash, “sabendo que um público cultivado é ávido por fatos e
cultiva a ilusão de estar bem informado, o propagandista moderno evita slogans
grandiloquentes e se atém a ‘fatos’, dando a ilusão de que a propaganda é
informação”.
Qual a base de apoio da credibilidade e da confiabilidade? A
resposta encontra-se num outro ponto comum aos programas de auditório, às
entrevistas, aos debates, às indagações telefônicas de rádios, revistas e
jornais, aos comerciais de propaganda. Trata-se do apelo à intimidade, à
personalidade, à vida privada como suporte e garantia da ordem pública. Em
outras palavras, os códigos da vida pública passam a ser determinados e
definidos pelos códigos da vida privada, abolindo-se a diferença entre espaço
público e espaço privado. Assim, as relações interpessoais, as relações
intersubjetivas e as relações grupais aparecem com a função de ocultar ou de
dissimular as relações sociais enquanto sociais e as relações políticas
enquanto políticas, uma vez que a marca das relações sociais e políticas é
serem determinadas pelas instituições sociais e políticas, ou seja, são
relações mediatas, diferentemente das relações pessoais, que são imediatas,
isto é, definidas pelo relacionamento direto entre pessoas e por isso mesmo
nelas os sentimentos, as emoções, as preferências e os gostos têm um papel
decisivo. As relações sociais e políticas, que são mediações referentes a
interesses e a direitos regulados pelas instituições, pela divisão social das
classes e pela separação entre o social e o poder político, perdem sua
especificidade e passam a operar sob a aparência da vida privada, portanto,
referidas a preferências, sentimentos, emoções, gostos, agrado e aversão.
Não é casual, mas uma consequência necessária dessa
privatização do social e do político, a destruição de uma categoria essencial
das democracias, qual seja a da opinião pública. Esta, em seus inícios (desde a
Revolução Francesa de 1789), era definida como a expressão, no espaço público,
de uma reflexão individual ou coletiva sobre uma questão controvertida e
concernente ao interesse ou ao direito de uma classe social, de um grupo ou
mesmo da maioria. A opinião pública era um juízo emitido em público sobre uma
questão relativa à vida política, era uma reflexão feita em público e por isso
definia-se como uso público da razão e como direito à liberdade de pensamento e
de expressão.
É sintomático que, hoje, se fale em “sondagem de opinião”.
Com efeito, a palavra sondagem indica que não se procura a expressão pública
racional de interesses ou direitos e sim que se vai buscar um fundo silencioso,
um fundo não formulado e não refletido, isto é, que se procura fazer vir à tona
o não pensado, que existe sob a forma de sentimentos e emoções, de
preferências, gostos, aversões e predileções, como se os fatos e os
acontecimentos da vida social e política pudessem vir a se exprimir pelos
sentimentos pessoais. Em lugar de opinião pública, tem-se a manifestação
pública de sentimentos.
Nada mais constrangedor e, ao mesmo tempo, nada mais
esclarecedor do que os instantes em que o noticiário coloca nas ondas sonoras
ou na tela os participantes de um acontecimento falando de seus sentimentos,
enquanto locutores explicam e interpretam o que se passa, como se os
participantes fossem incapazes de pensar e de emitir juízo sobre aquilo de que
foram testemunhas diretas e partes envolvidas. Constrangedor, porque o rádio e
a televisão declaram tacitamente a incompetência dos participantes e envolvidos
para compreender e explicar fatos e acontecimentos de que são protagonistas.
Esclarecedor, porque esse procedimento permite, no instante mesmo em que se
dão, criar a versão do fato e do acontecimento como se fossem o próprio fato e
o próprio acontecimento. Assim, uma partilha é claramente estabelecida: os
participantes “sentem”, portanto, não sabem nem compreendem (não pensam); em contrapartida,
o locutor pensa, portanto, sabe e, graças ao seu saber, explica o
acontecimento.
É possível perceber três deslocamentos sofridos pela idéia e
prática da opinião pública: o primeiro, como salientamos, é a substituição da
idéia de uso público da razão para exprimir interesses e direitos de um
indivíduo, um grupo ou uma classe social pela idéia de expressão em público de
sentimentos, emoções, gostos e preferências individuais; o segundo, como também
observamos, é a substituição do direito de cada um e de todos de opinar em
público pelo poder de alguns para exercer esse direito, surgindo, assim, a
curiosa expressão “formador de opinião”, aplicada a intelectuais, artistas e
jornalistas; o terceiro, que ainda não havíamos mencionado, decorre de uma mudança
na relação entre s vários meios de comunicação sob os efeitos das tecnologias
eletrônica e digital e da formação de oligopólios midiáticos globalizados
(alguns autores afirmam que o século XXI começou com a existência de 10 ou 12
conglomerados de mas media de alcance global). Esse terceiro deslocamento se
refere à forma de ocupação do espaço da opinião pública pelos profissionais dos
meios de comunicação. Esses deslocamentos explicam algo curioso, ocorrido
durante as sondagens de intenção de voto nas eleições presidenciais de 2006:
diante dos resultados, uma jornalista do jornal O Globoescreveu que o povo estava contra a opinião
pública!
O caso mais interessante é, sem dúvida, o do jornalismo
impresso. Em tempos passados, cabia aos jornais a tarefa noticiosa e um jornal
era fundamentalmente um órgão de notícias. Sem dúvida, um jornal possuía
opiniões e as exprimia: isso era feito, de um lado, pelos editorais e por
artigos de não jornalistas, e, de outro, pelo modo de apresentação da notícia
(escolha das manchetes e do “olho”, determinação da página em que deveria
aparecer e na vizinhança de quais outras, do tamanho do texto, da presença ou
ausência de fotos, etc.). Ora, com os meios eletrônicos e digitais e a
televisão, os fatos tendem a ser noticiados enquanto estão ocorrendo, de
maneira que a função noticiosa do jornal é prejudicada, pois a notícia impressa
é posterior à sua transmissão pelos meios eletrônicos e pela televisão. Ou na
linguagem mais costumeira dos meios de comunicação: no mercado de notícias, o
jornalismo impresso vem perdendo competitividade (alguns chamam a isso de
progresso; outros, de racionalidade inexorável do mercado!).
O resultado dessa situação foi duplo: de um lado, a notícia é
apresentada de forma mínima, rápida e, frequentemente, inexata – o modelo
conhecido como News Letter – e, de outro, deu-se a passagem gradual do jornal
como órgão de notícias a órgão de opinião, ou seja, os jornalistas comentam e
interpretam as notícias, opinando sobre elas. Gradualmente desaparece uma
figura essencial do jornalismo: o jornalismo investigativo, que cede lugar ao
jornalismo assertivo ou opinativo. Os jornalista passam, assim, o ocupar o
lugar que, tradicionalmente, cabia a grupos e classes sociais e a partidos
políticos e, além disso, sua opinião não fica restrita ao meio impresso, mas
passa a servir como material para os noticiários de rádio e televisão, ou seja,
nesses noticiários, a notícia é interpretada e avaliada graças à referência às
colunas dos jornais
Os deslocamentos mencionados e, particularmente, este último,
têm consequências graves sob dois aspectos principais:
1) uma vez que o jornalista concentra poderes e forma a
opinião pública, pode sentir-se tentado a ir além disso e criar a própria
realidade, isto é, sua opinião passa a ter o valor de um fato e a ser tomada
como um acontecimento real ;
2) os efeitos da concentração do poder econômico midiático.
Os meios de comunicação tradicionais (jornal, rádio, cinema, televisão) sempre
foram propriedade privada de indivíduos e grupos, não podendo deixar de
exprimir seus interesses particulares ou privados, ainda que isso sempre tenha
imposto problemas e limitações à liberdade de expressão, que fundamenta a ideia
de opinião pública. Hoje, porém, osconglomerados de alcance global controlam não só os meios tradicionais,
mas também os novos meios eletrônicos e digitais, e avaliam em termos de
custo-benefício as vantagens e desvantagens do jornalismo escrito ou da
imprensa, podendo liquidá-la, se não acompanhar os ares do tempo.
Esses dois aspectos incidem diretamente sobre a transformação
da verdade e da falsidade em questão de credibilidade eplausibilidade.Rápido, barato, inexato, partidarista, mescla
de informações aleatoriamente obtidas e pouco confiáveis, não investigativo, opinativo
ou assertivo, detentor da credibilidade e da plausibilidade, o jornalismo se
tornou protagonista da destruição da opinião pública.
De fato, a desinformação é o principal resultado da maioria
dos noticiários nos jornais, no rádio e na televisão, pois, de modo geral, as
notícias são apresentadas de maneira a impedir que se possa localizá-la no
espaço e no tempo.
Ausência de referência espacial ou atopia: as diferenças
próprias do espaço percebido (perto, longe, alto, baixo, grande, pequeno) são
apagadas; o aparelho de rádio e a tela da televisão tornam-se o único espaço
real. As distâncias e proximidades, as diferenças geográficas e territoriais
são ignoradas, de tal modo que algo acontecido na China, na Índia, nos Estados
Unidos ou em Campina Grande apareça igualmente próximo e igualmente distante.
Ausência de referência temporal ou acronia: os acontecimentos
são relatados como se não tivessem causas passadas nem efeitos futuros; surgem
como pontos puramente atuais ou presentes, sem continuidade no tempo, sem
origem e sem consequências; existem enquanto forem objetos de transmissão e
deixam de existir se não forem transmitidos. Têm a existência de um espetáculo
e só permanecem na consciência dos ouvintes e espectadores enquanto permanecer
o espetáculo de sua transmissão.
Como operam
efetivamente os noticiários?
Em primeiro lugar,
estabelecem diferenças no conteúdo e na forma das notícias de acordo com o
horário da transmissão e o público, rumando para o sensacionalismo e o
popularesco nos noticiários diurnos e do início da noite e buscando
sofisticação e aumento de fatos nos noticiários de fim de noite. Em segundo,
por seleção das notícias, omitindo aquelas que possam desagradar o patrocinador
ou os poderes estabelecidos. Em terceiro, pela construção deliberada e
sistemática de uma ordem apaziguadora: em sequencia, apresentam, no início,
notícias locais, com ênfase nas ocorrências policiais, sinalizando o sentimento
de perigo; a seguir, entram as notícias regionais, com ênfase em crises e
conflitos políticos e sociais, sinalizando novamente o perigo; passam às
notícias internacionais, com ênfase em guerras e cataclismos (maremoto,
terremoto, enchentes, furacões), ainda uma vez sinalizando perigo; mas concluem
com as notícias nacionais, enfatizando as idéias de ordem e segurança,
encarregadas de desfazer o medo produzido pelas demais notícias. E, nos finais
de semana, terminam com notícias de eventos artísticos ou sobre animais
(nascimento de um ursinho, fuga e retorno de um animal em cativeiro, proteção a
espécies ameaçadas de extinção), de maneira a produzir o sentimento de
bem-estar no espectador pacificado, sabedor de que, apesar dos pesares, o mundo
vai bem, obrigado.
Paradoxalmente, rádio e televisão podem oferecer-nos o mundo
inteiro num instante, mas o fazem de tal maneira que o mundo real desaparece,
restando apenas retalhos fragmentados de uma realidade desprovida de raiz no
espaço e notempo. Como desconhecemos as
determinações econômico-territoriais (geográficas, geopolíticas, etc.) e como
ignoramos os antecedentes temporais e as consequências dos fatos
noticiados,não podemos compreender seu
verdadeiro significado. Essa situação se agrava com a TV a cabo, com emissoras
dedicadas exclusivamente a notícias, durante 24 horas, colocando num mesmo
espaço e num mesmo tempo(ou seja, na
tela) informações de procedência, conteúdo e significado completamente
diferentes, mas que se tornam homogêneas pelo modo de sua transmissão. O
paradoxo está em que há uma verdadeira saturação de informação, mas, ao fim,
nada sabemos, depois de termos tido a ilusão de que fomos informados sobre
tudo.
Se não dispomos de recursos que nos permitam avaliar a
realidade e a veracidade das imagens transmitidas, somos persuadidos de que
efetivamente vemos o mundo quando vemos a TV ou quando navegamos pela internet.
Entretanto, como o que vemos são as imagens escolhidas, selecionadas, editadas,
comentadas e interpretadas pelo transmissor das notícias, então é preciso
reconhecer que a TV é o mundo ou que a internet é o mundo.
A multimídia potencializa o fenômeno da indistinção entre as
mensagens eentre os conteúdos. Como
todas as mensagens estão integradas num mesmo padrão cognitivo e sensorial, uma
vez que educação, notícias e espetáculos são fornecidos pelo mesmo meio, os conteúdos
se misturam e se tornam indiscerníveis. No sistema de comunicação
multimídiaa própria realidade fica
totalmente imersa em uma composição de imagens virtuais num mundo irreal, no
qual as aparências não apenas se encontram na tela comunicadora da experiência,
mas se transformam em experiência. Todas as mensagens de todos os tipos são
incluídas no meio por que fica tão abrangente, tão diversificado, tão maleável,
que absorve no mesmo texto ou no mesmo espaço/tempo toda a experiência humana,
passada, presente e futura, como num ponto único do universo.
Se, portanto, levarmos em consideração o monopólio da
informação pelas empresas de comunicação de massa, podemos considerar, do ponto
de vista da ação política, as redes sociais como ação democratizadora tanto por
quebrar esse monopólio, assegurando a produção e a circulação livres da
informação, como também por promover acontecimentos políticos de afirmação do
direito democrático à participação. No entanto, os usuários das redes sociais
não possuem autonomia em sua ação e isto sob dois aspectos: em primeiro lugar,
não possuem o domínio tecnológico da ferramenta que empregam e, em segundo, não
detêm qualquer poder sobre a ferramenta empregada, pois este poder é uma
estrutura altamente concentrada, a Internet Protocol, com dez servidores nos
Estados Unidos e dois no Japão, nos quais estão alojados todos os endereços
eletrônicos mundiais, de maneira que, se tais servidores decidirem se desligar,
desaparece toda a internet; além disso, a gerência da internet é feita por uma
empresa norte-americana em articulação com o Departamento de Comércio dos
Estados Unidos, isto é, gere o cadastro da internet mundial. Assim, sob o
aspecto maravilhosamente criativo e anárquico das redes sociais em ação
política ocultam-se o controle e a vigilância sobre seus usuários em escala
planetária, isto é, sobre toda a massa de informação do planeta.
Na perspectiva da democracia, a questão que se coloca,
portanto, é saber quem detêm o controle dessa massa cósmica de
informações.Ou seja, o problema é saber
quem tem a gestão de toda a massa de informações que controla a sociedade, quem
utiliza essas informações, como e para que as utiliza, sobretudo quando se leva
em consideração um fato técnico, que define a operação da informática, qual
seja, a concentração e centralização da informação, poistecnicamente, os sistemas informáticos operam
em rede, isto é, com a centralização dos dados e a produção de novos dados pela
combinação dos já coletados.
(*) Em nenhuma
democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e
até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm
no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da
Imprensa Golpista.
Há alguns anos tenho este maravilhoso filme baseado no magnífico livro do grande escritor português, José Saramago: o único a falar a língua portuguesa que ganhou o prêmio Nobel de Literatura. O filme abre para diversas possibilidades de discussões existênciais, sociológicas, psicológicas e, claro, filosóficas. o diretor, o brasileiro Fernando Meirelles; uma das principais atrizes também é brasileira, Alice Braga, e filmado, dentre outras cidades, em São Paulo, no Vale do Anhangabaú:
Por que lembrei-me dele novamente agora? Por estar revendo-o hoje para passar em aula (e ter que "editar" algumas partes) e ver somente agora o "bonus", de onde tirei algumas falas de seus atores, diretores, etc, bastante interessantes para refletirmos acerca das diversas propostas do livro, do filme, da IDEIA...
"O filme é um dizer de que quem tem olhos numa terra de cegos...."
"É uma metáfora wsobre nossa sociedade e o fato de sermos todos cegos"
"Sobre a fragilidade da civilização. Quando uma coisa cai, tudo o mais desmorona..."
"Certos aspectos da sua personalidade vêm a tona (em determinadas situações limite) vem á tona e que poderiam passar a vida toda escondidos"
"Você precisa deles e eles precisam de você, eles são você, nós somos todos iguais"
"Quem somos nós? Qual a nossa responsabilidade pelo ooutro, pelo que fazemos todos os dias? "
"O que aconteceria se isso realmente acontecesse? Se houvesse um acidente e toda essa estrutura social que temos como certa, ou uma coisa tão simples, como nossa visão, se tudo isso acabasse? Como nós reformunlaríamos ou reimaginaríamos a forma como olhamos o outro e vemos o outro?"
"estar cego é aceitar a humilhação"
"Trata-se da humanidade, do ser humano. Nós somos assim. Nós nos achamos muito civilizados, muito sofisticados, mas se você não tiver comida, ou se estiver numa situação, quando falta algo, você se torna o que vemos aqui. "
"Esse filme não é apenas uma criação, ele diz muito sobre quem nós realmente somos"
E este é Saramago, tem muito mais a nos dizer, pena sua voz ter calado em 2010, mas sua obra, como toda obra de pensador, é eterna:
“Eu vou apresentar uma canção que é uma homenagem a todo mundo que teve dúvida sempre – é um protesto estético sexual carnavalesco de esquerda a todos que tiveram certeza absoluta o tempo todo – é o reconhecimento público de que nunca vi um imbecil hesitar – é um protesto estético e claro contra todos os grandes pais, salvadores da humanidade, os heróis... mistérios..., Viva a dúvida!” (Fala de Oswaldo Montenegro em show...)
Mistérios
Oswaldo Montenegro
Tudo o que eu pensei saber ainda é mistério
qual é a relação de Crato lá com New Orleans?
a chave do amor é uma risada ou é um jeito sério?
é singular o fecho todo ou já são vários fins?
é sempre o mesmo Deus ou troca como um Ministério?
é sempre a mesma afirmação ou já são vários sins?
é cheia a taça da paixão ou é um rio estéril?
são sete demos musicais ou doze querubins?
se a vida continua ou não ainda é mistério
o ciclo começa por onde: noite ou manhã?
o barco do destino é uma prisão ou é um grande império?
quem é que descerá dos céus nos braços de Tupã?
é sempre o mesmo Deus ou troca como um Ministério?
depois que a gente já mentiu a coisa ainda é sã?
a sorte é uma abstração, o azar é um mistério
e Deus freqüenta a arquibancada do Maracanã
Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste, e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia
E a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.
Música pop está barulhenta demais e muito igual, diz a ciência
Pesquisadores espanhois analisaram arquivo de canções entre 1955 e 2010 e descobriram que música está mais barulhenta e acordes, melodias e timbres, muito parecidos...
Como já suspeitavam os maiores de 35 anos, a música pop atual está mais barulhenta, e parece tudo igual, segundo cientistas da Espanha.
Eles compararam um enorme arquivo chamado Million Song Dataset, que "traduz" o conteúdo de letra e música em dados que podem ser esmiuçados, e assim analisaram canções populares feitas entre 1955 e 2010.
Com o uso de complexos algoritmos, eles descobriram que as canções pop se tornaram intrinsecamente mais barulhentas e mais insípidas em termos de acordes, melodias e timbres.
"Encontramos evidências de uma progressiva homogeneização do discurso musical", disse à Reuters Joan Serra, especialista em inteligência artificial do Conselho Nacional Espanhol de Pesquisas, que liderou o estudo.
"Em especial, obtivemos indicadores numéricos de que a diversidade de transições entre as combinações de notas --grosso modo, os acordes mais as melodias-- diminuiu consistentemente nos últimos 50 anos".
Eles também mostraram que a chamada paleta de timbres empobreceu. A mesma nota tocada no mesmo volume por um piano ou um violão, por exemplo, tem timbres diferentes. Ou seja, os pesquisadores concluíram que o pop moderno tem uma variedade mais limitada de sons.
Há muito tempo a indústria fonográfica é acusada de aumentar o volume das gravações, travando uma "guerra sonora", mas Serra disse que essa foi a primeira vez que isso foi mensurado com base em um grande bancos de dados.
O avanço da vida urbana... mudou o comportamento dos homens das cavernas?
Continua querendo deixar suas imagens e nomes nas
paredes Pintando e furando seus corpos
Brigando por fêmea (ou por macho) Brigando por território Matando os animais para comer Não sabendo se comunicar Torcendo por ver os outros se matarem Usando todos os recursos naturais sem
preocupação (só que agora degradamos em escala muito maior e ainda produzimos
muito lixo...) Não aprendendo a fazer o fogo, mas seguindo quem sabe ou quem tem o fogo! ...
Vejam o filme "A guerra do Fogo" e depois me respondam a questão do início desta postagem...
Patrícia Rehder Galvão, conhecida pelo pseudônimo de Pagu, (São João da Boa Vista, 9 de junho de 1910 — Santos, 12 de dezembro de 1962) foi uma escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista e jornalista brasileira. Teve grande destaque no movimento modernista iniciado em 1922, embora não tivesse participado da Semana da Arte Moderna porque, na época, contava apenas com onze anos de idade.
Militante comunista foi a primeira mulher presa no Brasil por motivações políticas.
Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Uh! Uh! Uh! Uh!...
Eu sou pau prá toda obra
Deus dá asas à minha cobra
Hum! Hum! Hum! Hum!
Minha força não é bruta
Não sou freira
Nem sou puta...
Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem
Nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...
Ratatá! Ratatá! Ratatá!
Taratá! Taratá!...
Sou rainha do meu tanque
Sou Pagu indignada no palanque
Hanhan! Ah! Hanran!
Uh! Uh!
Fama de porra louca
Tudo bem!
Minha mãe é Maria Ninguém
Uh! Uh!...
Não sou atriz
Modelo, dançarina
Meu buraco é mais em cima
Porque nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...
Nem!
Toda feiticeira é corcunda
Nem!
Toda brasileira é bunda
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho
Que muito homem...(2x)
Ratatá! Ratatatá
Hiii! Ratatá
Taratá! Taratá!...
Desembargadora Kenarik Boujikian: “Ninguém, muito menos a polícia e as demais instituições estatais podem expor uma pessoa de forma humilhante, seja ela quem for, seja ela suspeita ou autora de crime”
por Conceição Lemes
Em 10 de maio, o programa Brasil Urgente Bahia exibiu, e a Band reprisou nacionalmente, a matéria Chororô na delegacia: acusado de estupro alega inocência, da repórter Mirella Cunha.
Repugnante. Ultrajante. Degradante.
Porém, só a partir de 21 de maio, quando o vídeo caiu nas redes sociais, o episódio ganhou repercussão nacional.
O jornalista e blogueiro Renato Rovai foi o primeiro a denunciar a barbaridade: A repórter loira, o suposto negro estuprador e uma sequência nojenta.
Um grupo de jornalistas enviou carta aberta ao governador, ao Ministério Público e à Defensoria Pública do Estado condenando os abusos de programas policialescos na Bahia. O Ministério Público Federal decidiu investigar o caso.
Indignado, o baiano Gerson Carneiro, leitor do Viomundo e defensor de causas lúcidas e injustiçadas, nos mandou o link do vídeo, com esta mensagem:
“Poxa, independentemente de qualquer culpa do rapaz, isso não se faz. Todos os preconceitos estão aí. Um negro, pobre, acusado de estupro, sem advogado, algemado, acuado por uma loira detentora da situação naquele momento. O rapaz indefeso responde ingenuamente aos deboches da moça. Jornalismo tinha que ter um órgão regulador como tem Direito, Medicina, Engenharia, Arquitetura…”
O vídeo tem montagens típicas de internet, como repetições das falas e legendas, mas deixa evidente e claro que Uziel Bueno é tão responsável quanto Mirella Cunha neste caso.
Num primeiro momento, Uziel insinua com dois dedos que vai fazer o exame de próstata em Paulo Sérgio. Depois, com uma folha de sulfite enrolada simulando um pênis, repete as provocações.
Mandamos os dois links à doutora Kenarik Boujikian Felippe, que é co-fundadora e ex-presidente da Associação Juízes para a Democracia (AJD), desembargadora no Tribunal de Justiça de São Paulo e ex-membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo.
“É pior do que havia lido”, reagiu, no ato. Daí nasceu a nossa entrevista.
Viomundo – Se tivesse de dar uma nota para a entrevista feita pela repórter da Band e os comentários do apresentador do programa, que também é jornalista, qual seria?
Kenarik Boujikian — Zero para o Jornalismo, zero para o Estado.
Viomundo — Por quê?
Kenarik Boujikian – O Jornalismo e o Estado não cumpriram a regra essencial da Constituição Federal: a dignidade humana é fundamento da República, que se constitui em um Estado Democrático de Direito.
É inaceitável, em pleno século XXI, um jornalista tratar um ser humano sem o menor respeito, como se estivéssemos na Inquisição. Se jornalistas, com a co-responsabilidade das empresas para qual trabalham, atuam com este proceder, só o fazem porque existe a conivência dos órgãos de Estado.
Viomundo — Legalmente, a polícia pode expor um preso assim?
Kenarik Boujikian — Ninguém, muito menos a polícia e as demais instituições estatais podem expor uma pessoa de forma humilhante, seja ela quem for, seja ela suspeita ou autora de crime. A nossa Constituição Federal, no artigo 5º, assegura aos presos o respeito à integridade física e moral e o direito de personalidade.
No tocante ao Jornalismo, este repulsivo episódio, me faz lembrar as palavras de Francisco José Karam (Jornalismo, Ética e Liberdade):
É necessária a defesa da “vinculação da realização ética da profissão com medidas efetivas para a democracia informativa nos meios de comunicação, incluindo políticas que favoreçam a segmentação do mercado, a diversificação da propriedade, o controle social sobre a mídia existente hoje e o acesso plural aos meios”.
Sem essas medidas, dificilmente os graves problemas pelos quais passam o Jornalismo brasileiro serão superados.
Viomundo – No Brasil, nós temos o Código de Ética, que lista uma série de deveres para os jornalistas.
Kenarik Boujikian – O que torna mais grave esse episódio. De acordo com artigo 6º do Código de Ética, é dever do jornalista, entre outros:
I – opor-se ao arbítrio, ao autoritarismo e à opressão, bem como defender os princípios expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos;
V – valorizar, honrar e dignificar a profissão;
VIII – respeitar o direito à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão;
X – defender os princípios constitucionais e legais, base do estado democrático de direito;
XI – defender os direitos do cidadão, contribuindo para a promoção das garantias individuais e coletivas, em especial as das crianças, dos adolescentes, das mulheres, dos idosos, dos negros e das minorias;
Como não bastasse isso, dita o artigo 9º do mesmo Código de Ética, que a presunção de inocência é um dos fundamentos da atividade jornalística.
As imagens e o conteúdo da entrevista demonstram cabalmente que foi feita tábua rasa desses princípios, pois o que todos viram foi barbárie.
Viomundo – Por que a Justiça faz vista grossa a esses abusos?
Kenarik Boujikian – Não se pode generalizar, mas, infelizmente, frequentemente, os delegados abrem as portas das delegacias e permitem que os jornalistas tenham contato direto com as pessoas detidas. Escancaram a entrada dos distritos policiais para que jornalistas violem direitos primários, sem qualquer cerimônia, com plena aquiescência.
Os promotores de Justiça e os defensores públicos não atuam em defesa do Estado e Direito, exigindo medidas do Judiciário para que esta conduta cesse ou não fique impune. Assim, o Judiciário permanece inerte e com tal omissão atesta a validade dessas condutas.
Interessante que, na mesma semana em que as redes sociais mostraram a sua indignação com esta entrevista humilhante, vimos, na chamada CPI do Cachoeira, outra pessoa ser inquirida e fazer uso do seu direito constitucional de permanecer em silêncio. Esse é direito sagrado, fundamental. O que se espera de um jornalista é que, no mínimo, atente a isso.
Qual a diferença entre esses dois casos? O jovem que foi exibido e humilhado para todos verem, inclusive seus familiares, era negro, de baixa escolaridade e certamente não tinha condições de contratar advogado nem lhe foi disponibilizado um defensor público. Na Bahia, como em outras unidades da federação, o número de defensores públicos é irrisório perto da demanda.
O outro tinha advogado constituído, estava em outra esfera econômica/social/política. Só que todos os cidadãos, sem exceção, têm direito à orientação por advogados ou defensores públicos para só depois se manifestarem. E isso – atenção! — em qualquer espaço.
Viomundo – Ou seja, há uma conivência do Estado. Por quê?
Kenarik Boujikian –Em certa medida, esta conivência estatal é reflexo da ditadura civil-militar que o Brasil viveu. Naquele período, o Estado elegeu como seus inimigos aqueles que queriam outro país. Contra eles, tudo era possível, pois inimigos não são considerados pessoas, apenas inimigos e como tais não possuem o atributo da dignidade, assim foram torturados, desrespeitados, desaparecidos e assassinados.
No dias de hoje, como legado daquela cultura, os inimigos eleitos pelo Estado e também pela mídia são os pobres e marginalizados, tratados como se coisas fossem.
Também repercute, em caráter individual, o desenvolvimento moral das pessoas que exercem poderes de Estado, que não conseguem se colocar na posição do outro. Não conseguem usar o “véu da ignorância” e se colocar na posição das outras pessoas. Não conseguem ver os que são diferentes de si por certas circunstâncias, como pobreza, pouca instrução, negros, como seus iguais, possuidores dos mesmos atributos. Se conseguissem fazer este exercício, não atuariam de modo perverso.
Viomundo – Existe alguma legislação em relação à exposição de pessoa presa?
Kenarik Boujikian – Na Justiça paulista,há cerca de três décadas, o magistrado José Gaspar Gonzaga Franceschini, na ocasião Corregedor da Polícia e dos Presídios, por meio de portaria, inaugurou a proibição para impedir que fosse feita exposição dos presos. Depois, o corregedor Geraldo Pinheiro Franco e outros juízes da capital seguiram esses nortes.
Foram medidas administrativas e não jurisdicionais, que bem poderiam servir de inspiração para as Corregedorias Gerais de todo o Brasil ou mesmo para o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), de modo que todas as situações prisionais fossem alcançadas. É para que pessoas sujeitas ao poder estatal — sob custódia do Executivo e Judiciário – não sejam expostas, observando que, por vezes, só exposição delas já caracteriza a execração.
Agora, não expor o preso não significa que ele não possa dar entrevista. Com certeza, ele pode ter interesse em fazê-lo. Mas deve ser de forma verdadeiramente consentida e somente depois de conversar com seu advogado/defensor, que poderá dizer quais os direitos que lhe estão assegurados.
Viomundo – Nessa altura, alguns vão questionar: isso não cercearia a liberdade de imprensa?
Kenarik Boujikian — Os direitos de expressão, informação e imprensa são direitos interligados. Em 1776, portanto há 236 anos, a Declaração de Direitos do Estado de Virgínia, nos EUA, reconheceu explicitamente a liberdade de expressão através da imprensa.
Em 1791, a Emenda número 1 da Constituição dos Estados Unidos da América garantiu este direito. E em 1789 a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão contemplou esses direitos estabelecendo:
“A livre comunicação das idéias e das opiniões é um dos mais preciosos direitos do homem; todo o cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo todavia pelos abusos desta liberdade nos termos previstos em lei”.
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 1948, em seu artigo 19, acolheu tais direitos e também expressamente o direito de informação. Destaco ainda: o artigo 19 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, de 1966; o Convênio Europeu para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais; e o artigo 13 do Pacto de San José da Costa Rica.
Todo o conteúdo de normas internacionais, acrescido dos princípios constitucionais, exige a conduta ética do jornalista. Isso implica reconhecer que a dignidade que cada ser humano carrega é o limitador da sua atividade.
Logo, são inadmissíveis ironias, chacotas, humilhações, preconceitos, desrespeitos, gritos, ironias, gozações. Só pode entrevistar a pessoa sob custódia dentro desses padrões. Do contrário, o jornalista estará violando o direito do indivíduo entrevistado e de todos nós.
Viomundo – O que fazer?
Kenarik Boujikian — É preciso encontrar soluções fora do Sistema de Justiça, que deve ser o último patamar a ser perseguido para a concretização dos direitos.
Outras esferas, mais efetivas e gerais, devem atuar para que o sistema de liberdade de expressão, pensamento e imprensa funcionem para o aprimoramento da democracia e do ser humano.
O Ministério das Comunicações, por exemplo, possui prerrogativas no sistema de concessão de TVs, mas é absolutamente omisso na tarefa de resguardar os direitos de cidadania.
Também é necessário pensar na criação de mecanismos de controle social contra práticas discriminatórias e violadoras dos direitos humanos praticadas pela mídia. Isso já existe em outros países, como a França, e não é absolutamente sinônimo de censura .
Espero que esse episódio da Bahia seja o estopim para uma maior reflexão sobre a necessidade de caminhos regulatórios da mídia que garantam a liberdade de imprensa no mesmo patamar da defesa dos direitos dos cidadãos, que não podem ser aviltados, quando lhe tocam o espaço da dignidade.